sábado, 16 de abril de 2011

Poema em linha recta


Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

4 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Obrigado, meu amigo... que saudades eu tinha deste poema em linha recta... amanhã, no Leituras Cruzadas, farei seguramente link!
Grande abraço.

Fê-blue bird disse...

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? "

Só mesmo da cabeça de Fernando Pessoa podia sair este excelente poema em linha recta para a sociedade torta!

Bjos

Isa GT disse...

Fernando Pessoa, qualquer coisa que eu escreva nunca poderá acrescentar mais nada a quem nem precisa que lhe acrescentem coisa nenhuma.

Quanto aos semideuses... detesto todos os que assim se consideram e não sou de etiquetas porque, bem cedo e há muito tempo que tive de resolver o meu problema de caranguejo tímido... que mal conseguia falar com esses pretensos e autoconvencidos semideuses e, nessa altura, passei à execução de um processo infalível, que tinha lido algures...
Quando alguém se sentir inferior a alguém com quem conversa, basta imaginar esse semideus sentado na sanita com uma tremenda cólica intestinal... automaticamente, desce ao nosso nível e ao de todos os mortais e, assim, tornou-se muito mais simples falar com e para... os ditos cujos ;)))

Bjos

Ana Paula Fitas disse...

... e pronto!... já lá está o link! ... para catarse dos dias e das almas angustiadas que somos todos!
Grande e grato abraço.