segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mãos Vidreiras

  
Poema: Mãos Vidreiras
Autor: Francisco Correia Moita

Olhai para estas mãos que aqui vedes
Já foram pequeninas e mimosas
Leves e macias como lírios
Rosadas e frescas como as rosas
Mãos que foram dóceis em criança
Hoje são áridas brutais
Não tendo a graça das ilustres
Valem certamente muito mais

Mãos vidreiras
Que o gás do forno queimou
Mãos vidreiras
Que o trabalho calejou
Mãos vidreiras
Que só fazem obras d’arte
Mãos que sabem ser vidreiras
Honradas em toda a parte

Olhai para estas mãos trabalhadoras
Pelo rigor da vida transformadas
Mãos que nunca foram ociosas
Mas pelo trabalho calejadas
Mãos que se irmanam com o fogo
Trabalhando o vidro em fusão
Mãos que são a alma de um povo
Na sua dura vida e em duro pão

9 comentários:

Luís Coelho disse...

Bom dia meu amigo
Nunca te tornas repetitivo. Aqui nesta casa somos todos iguais e cada um dá o que tem.
As tuas mãos ou as minhas mãos, são um livro que se abre e se deixa ler com o amor e o carinho que transmitem.
As mãos de todos nós são a nossa força, o grito que nos sai da alma e que se espalha fazendo o bem.
Que os nossos olhos nunca se voltem contra as mãos que trabalham o pão, nem sejam barreiras de
desunião entre todos os homens, povos ou nações.
Que as mãos dos vidreiros, mineiros ou de simples lavradores sejam o símbolo da alegria, honradez, da paz e do amor entre todos nós.

Teófilo Silva disse...

Luis Coelho.
Um belíssimo comentário ao post sobre os Vidreiros.
Que os desejos que aqui deixou se tornem realidade.

folha seca disse...

Caros Luis Coelho e Teófilo Silva
Este post é a minha homenagem aos Operários vidreiros. Sobretudo áqueles que em 1934 se revoltaram contra as condições de vida e a fascização dos sindicatos decretada por Salazar.
Dezenas de operários vidreiros foram presos e deportados, varios deles foram inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, onde alguns foram assassinados.
Um desses homens era o meu Avô Paterno. O meu Pai tinha 1 ano de idade. Durante 14 anos o meu avô esteve preso. Talvez o Teófilo perceba agora a minha reacção áquele comentário.

Teófilo Silva disse...

Percebi muito bem e aproveito para uma vez mais lhe pedir desculpa.
O comentário que deixei no Conversa Avinagrada, era apenas uma farpa lançada aos nossos políticos, e não tinha da minha parte qualquer saudosismo de um regime que nos escravizou durante 50 anos.
Se eu sofri, imagino o que sofreu o seu avô e todos os que cairam nas garras da pide.
Um abraço.

folha seca disse...

Caro Teófilo Silva
Está tudo percebido e compreendido.
Abraço

Rogério Pereira disse...

Caro Folha Seca, pena que a qualidade da gravação retire parte da emoção...

(Registo com agrado o esclarecimento do Teófilo Silva, cuja ironia
me escapou, naquele dia...)

Fê-blue bird disse...

Um poema muito belo e intenso que nos transmite a dureza das mãos de quem trabalha no duro.
Não o conhecia, obrigada por mais esta partilha.

Beijinhos

folha seca disse...

Caro Rogério e cara Fê
Este poema é muito antigo, presumo que dos anos 50. Foi cantado em fado por muitos fadistas populares. Segundo creio, só houve um disco (vinil) gravado já depois de abril, tenho-o por qualquer lado.
O poema reflete a dureza do trabalho do operário vidreiro, mas tambem a honradez que lhe esteve sempre associada.
Pena de facto as condições da gravação não serem as melhores.
Pretendi com este poema homenagear os homens que há 77 anos ousaram sonhar com a liberdade, gesto que pagaram bem caro. Amanhã sairá mais qualquer coisa.
Abraços

O Puma disse...

Belo

Pelo sonho é que vamos
com memórias vivas