terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Contributos para as comemorações do 18 de Janeiro

(texto publicado no "Largo das Calhandreiras" em 17 de Janeiro de 2010

Avô

Acontecem-nos coisas na vida, que inesperadamente nos surpreendem. Hoje ao ler algumas linhas sobre as comemorações do 18 de Janeiro de 1934, senti um impulso de te dizer qualquer coisa. Sei que estou a fazer algo impensável e também sei, que onde te encontras não vais ler nada disto, mas olha muitos de nós passamos e vamos passar por isto. Só nos dizem certo tipo de coisas quando já cá não estamos para as ouvir.

Quando te conheci era uma criança em formação, mas muito cedo criei um grande fascínio pela tua personalidade, penso que acontece a todas as crianças pelos seus avós e na altura de grande austeridade pela personalidade e bondade. Mas confesso que demorei algum tempo a perceber aquilo que mais tarde se tornou para mim um motivo de orgulho. Ou seja quando me perguntavam de quem era filho e neto, logo que o teu nome aparecia, quase que era proscrito porque era neto de um homem que esteve preso. Confesso que tive alguma dificuldade em lidar com isso enquanto criança. Então o meu avô, o melhor homem que conheço, esteve preso? Porquê? Foi uma dúvida com que vivi algum tempo e à qual procurava encontrar resposta, pois nessa altura a ideia generalizada era a de alguém que esteve preso, só podia ser, por ter feito algo de mal. Timidamente lá te fui perguntando e tu com a tua calma e sabedoria lá me foste explicando aquilo que contigo se tinha passado durante a tua vida. Com as limitações impostas pelo regime em que cresci e tu viveste quase toda a tua vida, tinhas que ser muito cauteloso e claro as explicações iam ficando para mais tarde. Uma coisa eu recordo, conseguiste convencer-me que não estiveste preso por ter feito algo condenável, antes pelo contrário.

O tempo passa e com 10 anos de idade fui trabalhar para o vidro, porque o orçamento familiar era muito curto e estava farto de ter apenas vinte e cinco tostões ao Domingo que apenas chegava para uma gasosa e um pacote de amendoins na sede da columbófila, explorada pelo Zé Folia e esperar que passasse mais uma semana para voltar a ter quantia igual para repetir a extravagância.

Apesar do meu Pai insistir para que continuasse a estudar, achei que o devia fazer, mas trabalhando de dia e estudando de noite, o que não fiz de imediato porque o trabalho por turnos no M.P. Roldão não era lá muito compatível.

Com o andar dos tempos e porque viste em mim mais um menino que se ia tornar homem à beira duma fornalha (comparado contigo e com o meu pai, já fui um privilegiado) lá me foste explicando mais umas coisas e dando a ler outras. Recordo uma revista de que eras assinante editada pela JOC (Juventude Operária Cristã) se a memória não me trai, onde li textos que contribuíram para a minha formação e educação. Com os tempos a passar fui tendo contigo uma relação de Avô/Neto muito especial, até porque contigo comemorei a liberdade que os militares de Abril nos deram porque muitos homens como tu e a sua abnegada luta pela liberdade serviram de incentivo.

Avô

Acredita que ao escrever este pequeno texto, vêm-me à memória uma infinidade de coisas que não cabem neste texto. Apenas, se fosse possível tu ouvires-me, gostava de te dizer que tenho um grande orgulho em ser teu neto e ostentar, como a mais valiosas das heranças, o teu nome.

Um Cidadão

PS: Quando mandei este texto para o "Largo" fi-lo como um Cidadão anónimo. Usei a primeira pessoa embora, muito Neto, filhos e outros familiares de sobreviventes do 18 de Janeiro de 1934, o podiam ter escrito, tantos foram os atingidos por aquela vaga de prisões que deixou em todos nós, marcas que o tempo não apagou. Peço desculpa pela pessoalização que dei ao texto.
Já Agora queria deixar aqui um desejo. Não deixemos apagar a memória. O Fascismo existiu em Portugal, com todas as consequências que conhecemos.

11 comentários:

Pedro Coimbra disse...

A pessoa que mais me marcou na vida foi o meu avô paterno.
Que partiu quando eu tinha 10 anos.
Um abraço

Luís Coelho disse...

Não conheci nenhum avô mas tive sempre uma preocupação que foi ensinar aos meus filhos o respeito pelos seus avós.
São marcos e marcas na nossa educação, crescimento e na vontade de viver.
Muitos dos nossos pais e avós desejaram ardentemente viver num tempo como o nosso. A suas grandes preocupações era ver-nos numa linha de vida melhor que as deles e que também consideravam ser de grande felicidade.

O conselho final é de uma grande transcendência porque hoje facilmente se esquecem as dificuldades vividas pelos nossos antepassados e essas prisões marcaram profundamente.

Nunca esqueçamos o quanto certos políticos nos fizeram sofrer. Nunca esqueçamos as suas cara de gente séria com simplicidade de cordeiros mas de corações assassinos.

Gente que nos roubou o pão e a dignidade de ser português.............

flor de jasmim disse...

Além de eu conhecer esta tua carta e muitas coisas mais que gostarias de dizer ao teu avô, que como dizes não caberiam neste texto e que infelizmente não o chegaste a fazer, não consegui conter as lágrimas, porque sei o quanto tu amavas e o orgulho que sempre tiveste e continuarás a ter em ser neto daquele que foi um grande Homem, como muitos outros nunca devem ser esquecidos. E nós deveremos fazer tudo para lhes dar continuação.
Beijinho

Carlos Albuquerque disse...

Cara folha seca,
Comoveu-me esta carta escrita por um Neto de Corpo Inteiro a um Homem Grande!
Inteiramente de acordo consigo: é preciso garantir que a memória se não apague. O fascismo existiu em Portugal (eu e familiares, como a esmagadora maioria do povo português, sentimo-lo na pele. Temos o dever de consciência de o revelar às gerações mais jovens para que saibam que a Liberdade de que hoje gozam não foi oferecida, mas conquistada!

Grande abraço

Flor do Liz disse...

Bom dia,

Arrepiei-me logo ao primeiro parágrafo.
O País, deve muito aos anti-fascistas deste Concelho.

Um abraço fraterno

Pratos da Bela disse...

Tinhas mesmo orgulho no teu avô, eu também tinha do meu materno.PARABÉNS
Jinhos fofos

Vento Norte disse...

Caro Folha Seca

Ao evocar o seu Avô, e através dele os heróicos operários vidreiros daquele tempo, fez seguramente a melhor homenagem pública à sua memória.
Pelos aproveitamentos oportunistas e conotações político-partidárias, a Revolta de 18 de Janeiro tem sido injustamente menorizada e quase apagada da memória colectiva dos marinhenses, sobretudo das novas gerações. No entanto, trata-se de um feito heróico impar da luta operária, num teatro longínquo e difícil, quantas vezes inspirador de consciências políticas e de outros episódios de combate à ditadura que foram acontecendo em décadas de luta até ao vitorioso Abril.
Parabéns pelo texto e pela oportunidade de o republicar.

Manuel P. Henriques disse...

Querido irmão (é mesmo assim que sinto), obrigado por me teres quase levado às lágrimas ao ler este teu texto. Muitas vezes recordo o nosso avô, e faço uma grande reflexão sobre o que ele não chegou a usufruir pelo muito que sofreu. Felizmente ainda pôde festejar o DIA DA LIBERDADE em 1974 e foi a partir daí que com os meus inocentes 13 anos de vida, comecei a perceber aqueles códigos que o nosso avô utilizava para nos responder quando lhe fazíamos perguntas às quais ele tanto desejava responder-nos, mas que para nossa protecção não podia.O nosso avô foi um grande CIDADÃO, continuemos a sua luta. Sentida homenagem a todos os lutadores antifascistas, do passado, presente e futuro.

folha seca disse...

Queridos Amigos e querido irmão.
Este texto foi escrito há um ano atrás.
A publicação foi um acto expontânio (como alías) é quase tudo o que daqui sai.
Apenas vos posso agradecer, as palavras que aqui deixaram.
Obrigado
Abraços ( sentidos)

Anónimo disse...

Na passagem de mais um glorioso aniversário do 18 de Janeiro,aproveito a oportunidade para prestar a minha singela homenagem a todos os participantes que com o seu exemplo nos deixaram um legado que todos nós temos o dever de continuar,preservando na memória das actuais e vindouras gerações o exemplo heróico desses homens e mulheres que protagonizaram um momento histórico e revolucionário ímpar no País.
Hoje mesmo tive oportunidade de visitar as suas campas,fazendo com este pequeno gesto,um grito de revolta contra as injustiças sociais que actualmente vivemos e ao mesmo tempo dizer fascismo nunca mais.
Sim porque é preciso no momento com a nossa presença afirmarmos os valores de Abril,sem retórica e sem nostalgia,mas como muita determinação e firmeza.
Viva o 18 de Janeiro !

Jluis disse...

e....
se iniciassemos uma mini bibliografia do avô "cidadão"?
e se a historia dele fosse contada?
depois da nossa geração, ficará alguém para recordar e para contar?
O meu comentário em "jeito" de desafio...as memorias que tenho são as de um puto de 6/7 anos como tal muito vagas.
Eu quero saber e recordar com maior consistencia.
jluis