terça-feira, 24 de abril de 2012

O dia anterior


Há 38 anos, há hora que tento alinhavar este post estava a trabalhar numa fábrica de vidros existente na localidade dos Pousos, perto de Leiria. Era um dia igual a tantos outros, tinha 19 anos e um futuro obscuro à minha frente. Mais um ano e iria ingressar na tropa, então obrigatória e muito provavelmente após a recruta, pois nunca passaria de soldado “raso” lá seria mais um jovem a ser transformado em carne para canhão.
O futuro o simples pensar nisso era apenas uma miragem. Os jovens desses tempos tinham à sua frente apenas um muro opaco, nada se via do lado de lá. Era um tempo sem futuro, era um tempo em que nos iam chegando notícias de gente que morria ou ficava estropiado. Noticias que doíam ainda mais quando se tratava de alguém conhecido, familiar ou amigo.

Nesse tempo já me chegava alguma imprensa clandestina. Nesse tempo já participava nalguns encontros onde sabia de coisas que a imprensa, a rádio e a televisão não divulgavam. Nesse tempo já me atrevia a sonhar, com o fim da guerra colonial, com a liberdade e o direito de olhar para o lado de lá daquele muro intransponível.

Um dia depois  só um, mudou tudo. Estava novamente no meu posto de trabalho, onde começávamos de madrugada, seriam para aí 9/10 horas da manhã quando um fornecedor de ferramentas se abeirou de mim e me segredou. “Houve um golpe de estado, o Caetano já foi preso, o Spínola, tomou o poder” e mais algumas coisas que não recordo. Recordo sim que não contive a alegria que senti e a explosão de vivas e abaixos, como que se repente tivesse ficado maluco gritei, no que rapidamente fui acompanhado pela generalidade dos colegas de trabalho. De nada serviu o alerta dado pelo mensageiro (atenção que as coisas ainda não estão seguras).

De tudo o que se seguiu já sabemos, a alegria, a festa as conquistas, a liberdade e a construção de Democracia.

Também sabemos que hoje, muito do que foi conquistado está em causa. Mas também sabemos que dispomos duma arma que se a utilizarmos convenientemente, faremos cumprir as palavras do poeta que escreveu “agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu”.

Que se comemore Abril, mas que saibamos que mais do que nunca, o temos que defender. Esta noite estarei na praça Stephens na Marinha Grande, gritando a plenos pulmões: VIVA A LIBERDADE.

6 comentários:

Francisco Clamote disse...

Excelente forma de comemorar Abril: recordar o que era o "antes".

Ferreira, M.S. disse...

Caro Rodrigo,
Por momentos, vibrei com estes relatos. Obrigado.
Abraço!

acácia rubra disse...

Não sei o que lhe escrever porque a sua narrativa me emocionou.

VIVA A LIBERDADE

e

VIVAM OS IDEAIS DE ABRIL!

Beijo

Laura

relogio.de.corda disse...

Um emocionante registo da sua parte.
Gostei muito.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Rodrigamigo


Estou de volta e maluco como sempre. Carregado de saudades de Goa e da sua excelente gente. E agoniado com o que encontro por cá: tristeza, desânimo, desgraça. E, pelos vistos, o que está para vir será pior. Amanhã é dia de homenagem aos Capitães de Abril; mas também de luto por esta enorme maldade que os criados nacionais (???) da troika nos estão a fazer. Portugal, infelizmente, é assim…

Espero por ti – como sempre.

Abçs

Agulheta disse...

Olá Rodrigo.Obrigado pelo testemunho que aqui escreve e que muitos deveriam ler.Eu sei o que sentiu,e até eu por ser mulher soltei um grito de alegria que jamais esquecerei.Era jovem e casada já com dois filhos,mas em casa dos meus pais era sempre um sobressalto por causa do pai.Como pode verificar a minha alegria é partilhada.Muita coisa foi caindo porque não ensinaram nas escolas o que o mesmo representou,alguns políticos não o respeitaram como actualmente muito pior.
Feliz 25 de Abril em Liberdade.Abraço