quarta-feira, 11 de abril de 2012

MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA

MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA

Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,
logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca !”.
Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,
a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,
e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos
de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.
Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.
Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,
que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,
um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,
um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais
do que isso. Era a personagem que faltava
a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo
se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima
da vida do que da imaginação de quem efabula.
Ouviu-se o tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali
para começar logo no instante seguinte sob a forma
de revolta que não encontra nas bocas
as palavras certas para conquistar a rua.
Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.
Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,
o mártir da Praça Syntagma pediu apenas
para não se renderem, para não se limitarem
a ser unidades estatísticas na humilhação de uma pátria. Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,
mas sim que evitassem a sua trágica repetição.
E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,
sabendo-o já a salvo da humilhação
de deambular pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até os deuses, na sua olímpica distância,
se perfilaram de assombro ante a coragem deste gesto.
Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é costume, pela ignomínia de quem se vende
para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.
A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,
para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma. Estava livre.
Tornara-se herói de tragédia
enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,
deusa tantas vezes idolatrada e venerada.
Assim se despedia um homem de bem,
com a coragem moral de quem o destino não vence.

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,
Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,
uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu
e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,
de pé firme, porque nada tem a força de um homem
quando chega a hora de mostrar que tem razão”.
Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,
súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,
tão terreno e finito como qualquer homem com fome,
ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.

José Jorge Letria
6 de Abril de 2012

10 comentários:

Rogério Pereira disse...

É um excelente trabalho de JJL, mas tem este outro aqui

folha seca disse...

Caro Rogério
Já tinha lido (aliás raramente me escapa uma crónica do BB) curiosamente só o não tranformei em post, porque tinha acabado de publicar um.
Quer em crónica, quer em poema são excelentes (infelizmente). Temo que este tema se vá reproduzir.
Abraço (a seguir vou visitá-lo, pois já vi que tem um post novo).

Janita disse...

Rodrigo.
Esse suicídio em praça pública reveste-se de um enorme simbolismo.
Esperemos que os nossos idosos, tão expoliados nos seus mais elementares direitos, saibam resistir à tentação de morrer de pé, em sinal de revolta pelos atentados contra a sua dignidade.
Parabéns pela escolha deste excelente texto.
Nós e os gregos, tão distantes e tão perto!
Um beijinho.
Janita

acácia rubra disse...

Este é um caso público. Quantos não se suicidarão em casa de outro modo?

Beijo

São disse...

Este crime terá consequências para quem o provocou, ainda que essas gentalha não o saiba!

Boa noite

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Como a Acácia rubra, também sou de opinião que este é apenas um de muitos que vêm ocorrendo quase diariamente. Teve visibilidade, porque foi público e despertou algumas consciências. Não as do FMi que num comunicado lacónico "lamentou o sucedido".
Excelentes os artigos do JJL e do BB.
Abraço

Pedro Coimbra disse...

Quando o desespero chega a estes extremos há qualquer coisa de muito errado, Rodrigo.
Até um cego vê, porra!!
Aquele abraço

Isa GT disse...

Vi um documentário sobre os efeitos da crise na Grécia e este, não é caso único...
Numa entrevista, um psiquitra tentava, via net, fazer o maior número de consultas possível para tentar evitar que muitos só vissem essa opção. Os media mostram os confrontos com a polícia mas o desespero tem sido a parte menos visível mas cada vez maior.
Por cá... estamos no mesmo caminho... a ficar sem saídas.

Bjos

mfc disse...

Uma poesia que é mais um grito de alerta, mas que poucos querem ouvir!
Somos um povo abúlico e anestesiado!

Graça Sampaio disse...

Muito triste! Muito triste mesmo! Pobre Europa ao que chegaste!