terça-feira, 22 de maio de 2012

Os globos de trapo

Que tenho a ver com tamanha enormidade de pífia imitação de riqueza?
Que temos que ver com a fortuna esbanjada em vestidos e smokings perfumados, provavelmente emprestados, alugados, trocados por favores, proclamadores de griffe?

Quantos destes tecidos são apenas anúncio sem jeito de uma fama que brilha factuamente por uma noite na constelação de estrelas sem norte, numa sociedade sem azimutes?

Que me importa que se badalem e estimem, que se proclamem e exibam, que se flagelem de prendas e elogios, que levantem prémios designados por quem sabe o segredo maior de todas as coisas, ultima porta ao lado das entradas de cavalo, favor de todos os lóbis, concentração pouco plural de pesadelos e serviços?
 Que linda e fútil é a nossa sociedade, construída com fundamento na moda, no mostra hoje que amanhã não sabemos, e na post modernice mais larvar e imbecil da criação?
 Que artistas tao geniais recebem tantos elogios, sempre os mesmos?

Que gente é esta, vestida de boa, esmoleres criaturas ignorando a crise e o desemprego, ignorando os próprios sem abrigo que mais logo à noite, na mesma rua do Coliseu, farão de uma caixa de cartão apartamento e da raiva loucura e do sonho bebedeira, para esquecer e não lembrar a vida perdida?

Quantos são afinal os que mandam nesta fantochada requentada e triste? Quem acredita que aqueles sejam mesmo os maiores do ano, da vida, da década ou do Mundo que dê o primeiro passo.
Ali nunca premiariam nem Gil Vicente, nem Luiz Pacheco; nem Zeca, nem Adriano; nem Damião de Gois nem o pobre Luiz Vaz. Nem Jorge de Sena nem Vergilio Ferreira. Provavelmente, arrisco de propósito - para acusação maior de hipocrisia total – se calhar ali nunca venceria em vida Bernardo Sassetti.

Ali vive-se a aurea mediocritas do que temos. E tenta ocultar-se a pobreza por um dia, como se o pais fosse a TV e o sucesso uma pilha de favores encadeados sob a forma de um êxito vago e sem memória. Algumas editoras escolhem entre elas e distribuem o grupo do ano. Poucas. Para o ano a coisa roda e seremos todos felizes.


Oh senhores! Querem a canção do seculo? A pedra Filosofal, talvez. A coragem do século? Humberto Delgado, talvez Salgueiro Maia. O letrista do seculo? Ary!
Esses sim; esses são os meus maiores.
Esses serão para sempre os Globos de ouros de uma outra Gala, de um outro país que não é aquele que ali, só muito supostamente, está presente.
Pedro Barroso

7 comentários:

quem és, que fazes aqui? disse...

Não me importa se foi surripiado ou não.

O que me importa é que foi escrito, e bem, o que eu queria ter escrito.

Beijo

Laura

OceanoAzul.Sonhos disse...

Excelente! A realidade de forma nua e sem preconceitos.

abraço
cvb

Graça Sampaio disse...

Concordo! Mas cada vez há mais galas, mais ídolos, mais programas parvos nas televisões, nas revistas, nos jornais.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Vi os Globos de Ouro por razões familiares, pois uma das premiadas é minha sobrinha, mas estou plenamente de acordo consigo, Rodrigo.
Como já escrevi - creio até que mais de uma vez- a sociedade do consumo criou pessoas cujo principalobjectivo é "parecê-lo" em vez de "sê-lo".
A cfrise representa, em parte o regresso à realidade e, nesse aspecto, não posso deixar de dar alguma razão ao Coelho, quando diz que os portugueses ( muitos, mas não todos, obviamente) viviam acima das suas possibilidades. Endividaram-se até ao tutano, porque não poderiam tolerar que o vizinho tivesse algo que eles não tinham. A promessa de dinheiro fácil fez o resto, nesta sociedade virtual.
Abraço

PS: Não sei o que se terá passado com os seus comentários, Rodrigo. Fui ver a caixa do SPAM , mas só encontrei lá um de Abril.

Pedro Coimbra disse...

Nunca vi, Rodrigo.
E não tenho intenção de ver.
Só vi imagens do Jorge Palma gansado.
Bestial!!!
Aquele abraço

P.S. Escrevi o tal post sobre a Académica e o Académico

Fê-blue bird disse...

Detesto estas tretas, desculpe o termo.
Subscrevo e assino este belíssimo texto de um homem que admiro.
Às vezes penso que sou anormal, pois sou das poucas pessoas do meu círculo de conhecimentos que não vê televisão ;)
beijinhos

Rogério Pereira disse...

Muito bom!
Muito bom pelo escrito,
Pelo dito
e pelo tom

Mas (há sempre um mas)
o texto omite
que um artista,
um cantor
um letrista
ou entra nos critérios
ou nem sequer é mostrado
editado, publicado...

Liberdade de criação
existe, ou não?

Existir existe
só que fazem o que as editoras e estações querem
ou então
nem "passados" são!

(retire daqui, em termos políticos, as possíveis conclusões)