quarta-feira, 28 de março de 2012

Poema do Homem Só

Poema do Homem Só
António Gedeão

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,

virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

6 comentários:

acácia rubra disse...

E da dádiva de nós, resulta o esvaziamento de nós, astros arrefecendo... à espera.

Beijo

Gisa disse...

Paixão e entrega. Gostei muito querido amigo.
Um grande bj

Rogério Pereira disse...

Esta amargura, tão distante da Pedra Filosofal... Recorda-se de eu ter ficado perturbado por ele ter deixado suas memórias aos tetranetos?... Sejamos mais esperançosos... Se o pudermos... Da beleza do poema, nem falo.

A.Tapadinhas disse...

Brevemente falaremos sobre Gedeão e outros Poetas...

Abraço,
António

A sua visita, breve ou demorada, é sempre um prazer...
e uma honra!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Belo poema, Rodrigo. E mais não digo...
Abraço

Pedro Coimbra disse...

Na vertigem da pressa dos dias, corremos este risco, Rodrigo.
Aquele abraço