sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Portugal suicidado

Final do célebre "Manifesto Anti-Dantas", de José de Almada Negreiros, dito por Mário Viegas.

Há coisas que um dia "vemos, ouvimos e lemos" de que nos vamos lembrando consoante as circunstâncias. Aqui fica um desabafo de Almada Negreiros, escrito em 1915 mas que podia sê-lo hoje. (versão abreviada e titulo adaptado).

Por achar interessante e "imperdível" acrescento a este post um comentário que foi deixado na respectiva caixa.

Sem ousar sequer alcançar as barbas do mestre Almada, deixo aqui também, com saudade, o que a inspiração deste magnífico Manifesto Anti Dantas proporcionou. Talvez a
Quinta-feira, 3 de Abril de 2008, data em que foi publicado no Largo das Calhandreiras, ainda não tenha visto o sol se pôr. Basta olhar para as Águas de Portugal, EDP, etc, para o confirmar.

Abraço
Relaxoterapeuta

Manifesto Anti-Cunha

“Basta PUM Basta!!!”

Basta de picadas de melgas e mosquitos, basta! Morte à Cunha e morte a todos quantos a bajulam, a adornam, a todos quantos lhe alimentam uma existência perversa e dissimulada! Que morra a Cunha, que morra! PIM! Porque um país que vê ingénito nos olhos da menina Cunha, transparência, candura, inocência, é um país da treta, uma choldra, um punhado de feltreiros e palanfrórios que apenas têm o que merecem: um país deslambido, uma nação agarrada ao fadinho da fatalidade, da fatalidade de ter nascido no dia em que o filho deu uma aquecedela na mãe, um país de espertinhos, de chico-espertinhos “a mim não me comem não!...” Não te comem? Só se não calhar, sonso, ó pensas que a menina Cunha não é uma saloia atrevida? “Alto aí que eu não sou desses!” Desengana-te néscio, já todos piscaram o olho à bisca, já todos lhe miraram o cú e as mamas sem que ela tenha sequer corado de acanhamento. A menina Cunha é uma rameira, a menina Cunha é uma oferecida, a menina Cunha é uma meretriz. Enquanto se arrefenha com gajos como tu, coça o nariz e come tremoços e pevides, indiferente, incônscia, puta dos pés à cabeça e da cabeça aos pés, puta todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar. E olha que a gaja está em todo lado, c’uma porra! É nas empresas, é nas associações, é nos clubes, é nos hospitais, é nas repartições, é nos partidos, é nas câmaras, é no parlamento, é no governo... c’uma porra! Vai com todos, porra! Com todos, ouviste?
“Olá!...” T’ás a pensar: “mas quem é este gajo p’ra falar assim de tão inocente e prendada menina?” T’ás a pensar... mas tu lá pensas, carago? Tu lá tens escrúpulo de dares uma facadinha com a gaja só para internares a sogra, para ela ser operada à frente dos outros vinte mil que estão em lista de espera? Tu lá tens escrúpulo de dares uma facadinha com a gaja para veres aprovada a licença de construção da marquise? Tu lá tens escrúpulo que o teu filho passe à frente de cem garotos para entrar no infantário que escolheste? Tu lá tens escrúpulo de passares à frente de duzentos tipos mais qualificados do que tu, para aquele emprego que sabias impossível? Tu lá pensas nisso? Tu queres é chegar a casa e teres a janta na mesa. Tu queres é ver a bola no sofá, queres pular p’ra cima da patroa (como carinhosamente a tratas) sempre que te apetecer. Tu queres é que os outros decidam por ti e sabes porquê? Porque estás confiante, porque crês que a menina Cunha está à tua espera de perna aberta e que te vai safar, que te vai abrir as portas do empregozinho, do cargozinho, da consultazinha, do subsídiozinho, do lugarzinho no céu. E sabes porquê, chibante? Porque não acreditas no mérito, no esforço, no valor do trabalho. Enxovalhas a garota que arrancou o telemóvel das mãos da professora de francês, gritando e exigindo respeito pelos valores, pelo antigamente, mas sempre que podes dás uma trancadinha na puta, na cândida e prestimosa menina Cunha. Chafurdas na lama convencido que és impoluto.
Basta de picadas de melgas e mosquitos, basta! Que morra a Cunha, que morra! PUM! Porque caso não saibas ou a memória te falte, PIM, sabes de quem é filha a dita menina, sabes? É filha duma velha que odeias mas que engordas a couve e farelo. É filha da velha Corrupção, essa mesma, ouviste bem. És tu, eu e outros cabrões como nós que lhe damos trabalho, que permitimos que faça o que melhor sabe, minar o Estado, fazer-nos não acreditar...

“Morra o Dantas, morra! PIM!” E mais a puta da menina Cunha! PUM! 

5 comentários:

Margarida Costa disse...

Blog inspirador! :)
Fiz me seguidora... se tiver um tempinho a perder, passe no meu covil!

*http://oblogdasandracosta.blogspot.com/

Fê-blue bird disse...

Caro amigo, lembro-me bem dos textos fantásticos do Relaxoterapeuta.
A cunha tem sido e será a nossa maior fraqueza, por causa dela nunca chegaremos a lado nenhum.
Subscrevo e assino este manifesto anti-cunha !
PUM!

Beijinhos e bom fim de semana

acácia rubra disse...

Tive sempre um enorme prazer em ler o Manifesto...

por isso me manifesto

Beijo

Rogério Pereira disse...

Que morra a cunha, a menina cunha. PIM
Que morra o cunhador e o cunhado, o padrinho e o afilhado. PIM
(é que a corrupção é o acto, para que seja proscrito é preciso encontrar, julgar e condenar quem o comete)

Bom post, meu caro

Carlos Albuquerque disse...

Caro Rodrigo
Dê um salto à minha cubata, por faor.
Abraço