domingo, 3 de julho de 2011

Idas à Praia (memórias)

Não sou amante de praia, mas um apaixonado pelo mar. Antes de viver no campo passar 2 ou 3 dias sem o ver provocava-me uma enorme saudade. Em muitos dos meus maus momentos dava um salto a visitá-lo. Era como que se de um calmante se tratasse, tal o efeito.
Como sempre vivi a poucos Km do mar há largos anos que com facilidade lá me desloco.
Hoje fomos tomar um café à beira mar. Apesar de não estar um dia particularmente quente às 11 horas, já foi uma chatice estacionar. Enquanto olhava para as ondas recordei algumas das peripécias por que passava em criança para ir à praia, apesar de estar apenas a 10 Km de distância.

Lá em casa havia uma bicicleta usada pelo meu Pai e uma carroça que para além de ajudar nalguma agricultura de subsistência para complementar o unico sálário existente, era o transporte colectivo da família. A família era composta para além dos pais, por mais 3 filhos. Haveria de ser aumentada, mas já muito mais tarde com a mana mais nova.

Nos dias de ir à praia , a Mãe levantava-se de madrugada para tratar do almoço que embrulhado em jornais e pedaços de cobertor, se mantinha quente durantes umas horas. Cedinho lá se aparelhava o Burro à carroça e carregava-se com o necessário para o almoço e os demais utensílios, como estas viagens se fizeram durante anos e o Burro não foi sempre o mesmo, apenas me lembro de um dos nomes “Jerico”. Aliás penso que o Burro mudava, mas o nome mantinha-se.

Bastante cedo lá partíamos direitos a S.Pedro de Moel. Mãe e Pai no banco e os restantes passageiros arrumados no porta bagagens à mistura com o tacho e as louças (naquele tempo não havia descartáveis). Recordo que a primeira paragem era numa tasca na Guarda Nova, onde o meu Pai “matava o bicho” com um “traçadinho” despejando uma parte na palma da mão dando de beber um pouco ao Jerico pois a aguardente misturada com ginja “ajudava” a ganhar força.

A carroça era altamente "confortável". As rodas eram de madeira com uma cinta de metal à volta para não a desgastar. A suspensão era composta por uma molas de ferro que muito pouco amorteciam.

O problema maior, eram as subidas e descidas do percurso, o que obrigava a inúmeras paragens para nos apearmos quando a subida não conseguia ser vencida pelo Jerico e quando a descida era mais acentuada e mesmo com a ajuda do travão de mão da carroça era insuficiente e o Jerico era vencido pela gravidade e acabava por ajoelhar. Neste caso lá tínhamos que ajudar a segurar a Carroça.

De peripécia em peripécia algumas horas depois lá avistávamos o mar depois de vencida a ultima subida. Recordo o prazer e os gritos de júbilo quando lá ao fundo avistávamos aquela imensidão de água azul. Ainda hoje apesar do maior número de construções a visão é a mesma e a sensação de prazer também.

Todo este percurso era feito na mata de Leiria e ali mesmo quando terminava era o nosso “estacionamento” e local para o Pic-Nic (neste local existe hoje um monumento ao Rei D.Diniz e à Rainha Santa Isabel). Era desatrelar o Jerico prendê-lo a um pinheiro, dar-lhe almoço composto por palha seca e água. Acabado o "repasto" vai de arrumar tudo, deixar o Jerico a tomar conta dos haveres e lá íamos 1 ou 2 horas para a praia, porque a viagem de regresso era longa. Havia ainda tempo para dar uma voltinha nos baloiços do parque infantil, já existente junto ao Bambi.
Esta estória repetiu-se muitas vezes e eram momentos de grande felicidade pois também nós, íamos à praia.

Apesar de hoje ser impensável repetir a façanha, fazíamo-lo com gosto pois tomar umas banhocas e brincar no mar agarrados às bóias que não eram mais do que câmaras-de-ar que pedíamos na recauchutagem Seiça, traduzia-se num prazer indiscritível.

Claro que nem sempre corre tudo bem. Houve um dia em o Jerico decidiu vir embora e deixar-nos a pé. Coisas que acontecem.

19 comentários:

Janita disse...

Olá Rodrigo.
Nem imagina o enorme prazer que me proporcionou este delicioso relato das suas idas à praia, nos seus tempos de criança.
Antigamente tudo tinha um outro sabor e qualquer deslocação, ainda que de poucos kilómetros, dada a dificuldade dos acessos e dos meios de transporte, era uma autêntica aventura.
Também tenho as minhas gratas recordações nesse aspecto, mas não em relação ao mar. Esse, quando o vi pela primeira vez já tinha quase treze anos de idade, já que nasci e cresci no Alentejo.

Então o Jerico abalou e deixou-os em terra? Faço ideia a aflição dos seus pais!

Tudo tão diferente do que foi para os nossos filhos e netos...se bem que a visão do futuro se apresente tão negra, que o mais certo é voltarmos aos tempos antigos...!

Um beijo e o desejo de bom domingo para si e família.

Janita

Jluis disse...

A diferença de idade faz destas coisas....eu nao ia de carroça mas sim de carro.lembro-me de carrinha opel kadett, do carocha e do ford escort, que agora anda no rally...mas em especial da opel...lembro-me de paragens sucessivas para aproveitar a agua nos pucaros de resina para colocar no radiador do carro pois tinha as relas routas... e quando nao havia agua todos empurravam enquanto outros procuravam mais pucaros com água.
Com o ford lembro-me em especial de vir sentado em cima de um saco carregado de "diligramas" (?)granadas lançadas pela tropa com a G3 e que nao tinham detonado...que encontramos num morro na praia velha quando se começava a fazer mais uma barraca "resort de ferias". Entramos no posto da GNR e os agentes puseram-se a milhas quando viram o que levávamos...parecia outro 18 de janeiro! depois vim a saber que fiz todo o caminho a pontapear as granadas e elas nao explodiam dizia eu...mas a GNR de Leira deitou uns pinheiros abaixo com elas...foi uma sorte que tivemos! Depois ainda havia o resort do "ti julio" nas valeiras(?)memorias....e nao á já um novo jericó? Caso afirmativo desejo que seja a versão "com turbo".
Bom fds

Isa GT disse...

Adorei, especialmente essa do Jerico ir embora.
Devo ser um pouco mais nova mas, qualquer ida à praia implicava, também, madrugar e levar farnel... no entanto, como o meu pai era mecânico de automóveis, em vez de Jerico tínhamos um automóvel que seria mais uma lata velha que meu pai ia tentando manter vivo de qualquer maneira e a toda a força dos seus conhecimentos, assim na bagageira só cabiam peças subselentes e caixa de ferramentas... e uns dias por outros... era a espera e o suspense... se aquilo ia pegar ou ficar parado no meio de coisa nenhuma... e sem telemóvel ;) nós sabemos bem... o significado de aventura lol

Bjos

Pratos da Bela disse...

Rodrigo, amei "ouvir" uma memória tua...
Hije em dia, não existem dessas histórias para contar, também ia de carroça com um Jericó para a feira com a minha avó vendaer os legumes,,,
Bons velhos tempos, e por estas andanças para lá corremos...
Jinhos fofos

Fê-blue bird disse...

Meu amigo:
Visualizei toda esta sua "memória", o que indica que a descreveu na perfeição ;)
Fez-me recordar as vezes que fui à praia em criança com a família, o levantar cedíssimo, o arrumar o farnel, a excitação da viagem, parece-me tudo tão distante tão irreal.
Adorei!!!

beijinhos

Luís Coelho disse...

Olá Rodrigo.
Estou aqui que nem posso...então essa parte do burro "se pôr na alheta" e vos "deixar à pata" está muito bonita. Era burro mas nem tanto!...

Também me encanto com o mar, as ondas e os pescadores quando regressam da faina. Tantas coisa que tendem a desaparecer....

heretico disse...

um dia os burros abrem os olhos e recusam a canga! é da vida...

abraços

mery disse...

Gostei muito de ler essa historinha, lembrei do tempo dos meus avós, tão queridos, que contavam coisas assim,
Que saudades dos bons tempos, a infância era uma aventura deliciosa.
Pena que nasci em uma época tão diferente dessa, nem podia sair e brincar na rua, sou do Rio de Janeiro/Brasil...Entende.
Abraços, vou te seguir,
Se puderes me visita e se gostares ...Sou Mery/

Aurora disse...

Coisas que acontecem e que ficam para a nossa história pessoal.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Olá Rodrigo!
Chegado de férias inicio as minhas visitas e aproveito para lhe agradecer a participação no desafio que lancei no CR. Este belíssimo texto será linkado amanhã no CR para deleite de quem ainda não leu.
Grande abraço

Rosa dos Ventos disse...

Uma memória deliciosa sobre uma praia que não é a da minha infância mas da qual gosto muito, sobretudo no Inverno!

Sinapse disse...

Belissimo texto ... e lindas memorias de infancia!
Adorei ler!

paulofski disse...

Viva. Não sendo de cerimónias faço-me convidado e entro de mansinho, seguindo a dica do nosso amigo Carlos.

Bonito texto. Também guardo com muita saudade as visitas que fiz a S. Pedro de Moel. A primeira paragem foi breve. Em viagem de férias com os meus pais pernoitamos por uma noite no Hotel Mar e Sol. Anos mais tarde, em Agosto de 1991, foi lá que ouvi relatos do colapso soviético. Na altura estava acampado com um amigo no Orbitur, enquanto ia namoricando aquela que é hoje a minha mulher. Foram 15 dias de absoluto divertimento na praia pequena, no farol, na piscina, onde outros amigos se juntavam. E em Abril de 94, na nossa viagem de Lua de Mel de carro pelo país, fomos visitando locais marcantes e uma das primeiras paragens foi a praia pequena de . Pedro de Moel. Parei o carro junto à praia. Estava sol, mas um desagradável vento frio obrigou-nos a permanecer dentro do carro. Passamos alguns minutos a namoriscar e a apreciar a paisagem. Não se via vivalma. No momento em que dou à chave, sei lá donde, salta um policia barrigudo que me bate no vidro e exige ver a minha carta de condução e os documentos da viatura! Tudo legal. Depois continuamos viagem a sorrir com aquele insólito momento. O mais caricato é também recordar que em todos estes anos que passaram essa foi a única que alguma vez me pediram os documentos da condução!

Grato por ter despertado em mim vontade de relatar estas memoráveis recordações.

Manuela disse...

Caro Rodrigo, gostei imenso deste teu recordar de memórias de infância, tão distintas das que os nossos jovens, irão ter num futuro próximo!
Comoveu-me, relembrar como éramos felizes com muito menos :)

papoila disse...

Olá Rodrigo
Gostei muito de passar por aqui e de ler as suas memórias.
Divertida a fuga do Jerico!!!

Pedro Coimbra disse...

São Pedro de Moel, Rodrigo?
Também grandes memórias.
Não é a praia da minha vida, mas passei aí bons momentos.
Já aí não vou há tantos anos!!
Mas ainda não me esqueci da praia.
Abraço

Eva Gonçalves disse...

Olá Rodrigo, venho pela mão das crónicas do rochedo. Não conheço a praia, mas adorei estas memórias!:)Abraço

Helena disse...

Gostei muito desta sua história. A protagonista da minha fica ali mesmo ao lado. :)
Não consigo imaginar o quão penosa seria fazer aquela viagem de carroça, apesar de já a ter feito várias vezes de bicicleta e a pé.

folha seca disse...

Caras amigas e caros amigos
Quando escrevi este pequeno extracto das minhas memórias, não foi com intenção de participar no desafio que em boa hora o Carlos Barbosa de Oliveira lançou. Quando o anunciou achei que podia participar, com este texto
Talvez o post escrito até hoje que mais visitas teve. Agradeço ao Carlos com sinceridade.
A todos vós um agradecimento especial e um pedido de desculpas por não conseguir por limitação de tempo, corresponder como gostava.
Abraços