domingo, 11 de dezembro de 2011

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.

Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

António Gedeão

5 comentários:

Observador disse...

Uma escrita de Rómulo de Carvalho, perdão, António Gedeão, que merece toda a nossa atenção.

Bom domingo

acácia rubra disse...

Compreende-se que nesses anos distantes já não haverá História, nem passado.

E de nós, Rodrigo, quem se lembrará amanhã? Acredito porque vejo isso todos os dias, que os meus netos, se os tiver, não saberão quem fui nem o meu nome completo...

Também não sei se me aborrece muito esse facto de que tenho consciência agora. Importa-me é chegar ao fim dos meus dias sabendo quem fui e o que fui.

Beijo

Janita disse...

Rodrigo.

Amargo, mas muito realista este texto poético de um grande, grande poeta que muito aprecio.

Muito poucos se libertarão da lei da morte, como disse Camões.
Nós, simples anónimos, sem nenhum feito especial que fique registado na História, seremos esquecidos após a terceira geração, creio eu.

Que saibamos viver em paz com a nossa consciência e a certeza de sabermos, nós, quem somos e qual a nossa missão, enquanto cá andarmos.

De qualquer maneira esta interrogação permanece no meu espírito:
"E o nosso sofrimento para que serviu afinal.?"

Um beijo Rodrigo.
Tudo de bom na sua vida e na dos seus.

Janita

Pedro Coimbra disse...

Uma linda maneira de começar a semana.
E desejar boa semana a um amigo
Aquele abraço!

Mar Arável disse...

Boa memória

sempre a interrogar-nos