quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Os gordos e os magros

Por Ricardo Alves, (Jornal i publicado em 19 Out 2011)

Afinal os gordos eram os pensionistas. Aqueles velhotes sentados no jardim, a fazerem tempo para ir aos netos, são eles as tais “gorduras do Estado” que, na frase-bandeira de Passos Coelho, urge “cortar”. Pagarão mais em medicamentos com uma reforma menor.

E gordos são também os funcionários públicos, por manterem uma invejável estabilidade laboral e salarial e porque seria fútil taxar mais o sector privado, onde não faltam formas de reduzir salários, subempregar, reempregar por menos ou despedir.

Obesas são ainda as escolas e anafados são os cientistas, bolinhas colesteróticas que os iludidos acham indispensáveis ao progresso de longo prazo. Boa sorte a quem emigrar.

Os magros, esses, devem ser os banqueiros e a finança, apenas beliscados neste Orçamento e que todos os anos vêem os lucros subir. Esbelto é Jardim, que talvez (nem isso é certo) leve uma palmadita nos dedos com a suspensão de transferências até nos distrairmos dele.

Magríssima, quase esquelética, será a Igreja Católica, maior proprietária imobiliária de Portugal e que continua isenta de IMI e IMT, recebe de volta o IVA e ainda subsídios autárquicos para construir templos essenciais a uma sociedade moderna e tecnológica. Tísicas são as polícias e os serviços secretos, para mais em ano de “tumultos” (outra frase emblemática), isoladas no aumento de despesa.

Dieta sim, mas só para alguns.

7 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Excepcional, como são quase sempre as crónicas dele.
Obrigado pela partilha, Rodrigo

Janita disse...

Excelente análise sobre o conceito de quem precisa fazer dieta e perder uns quilos. Claro que nunca serão os que comem caviar e bebem champanhe.
Serão sim, aqueles cuja alimentação é feita à base de pão.
"Boa sorte a quem emigrar"

Um beijo, Rodrigo.

Fê-blue bird disse...

Caro amigo:
Excelente análise de um país onde aqueles que comem tudo são os que menos pagam.
Beijinhos

carol disse...

Somos todos iguais; só que uns são mais iguais do que outros. Ou mais gordos. Ou mais magros. Ou mais tristes.

Grande revolta!

Gisa disse...

Perfeição do ato de descrever o atual retrato social.
Um grande bj

Pedro Coimbra disse...

Rodrigo,
Ao ler este post lembrei-me do taxista que me levou do aeroporto para o hotel em Roma.
Que era o mais anti-clerical possível.
E que dizia que os padres eram os maiores proprietários de imóveis.
E que eram mais em número, mas menos úteis que as pu#$%.
Que, essas sim, tinham alguma utilidade :)))

BlueShell disse...

No ponto!!!
Magnífico texto...com alguma ironia e , por isso, mais rico ainda!!!
parabéns, parabéns...
BShell