terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Isto não fica assim"

18 Set 2012 Edição Público Cipriano Justo

No curto prazo de uma semana este Governo ficou rodeado de inimigos por todos os lados menos por um, a porta de saída, o único caminho amigo que ainda lhe sobra para sair pelo seu próprio pé. O caos não é o Governo demitir-se, ou ser demitido, o caos está instalado na vida dos portugueses e as reacções às medidas anunciadas a 7 e 11 de Setembro só vieram revelar a intensidade da ira que se foi acumulando desde que teve início a aplicação das medidas de austeridade. No 15 de Setembro, em todas as praças do país, o que vinha dividindo o Governo dos portugueses sofreu tal fractura que ficou exposto em toda a sua crueza o osso do problema: é preciso que tudo mude para que a democracia continue a ser o melhor dos sistemas.

Viu-se, para quem ainda tinha dado o benefício da dúvida, que vindo de onde vêm, os programas de ajustamento só se dirigem a quem passa a vida a ajustar-se às precárias condições de vida. E agora também àqueles que sempre imaginaram que o assunto não lhes dizia respeito ou nunca lhes bateria à porta. Mas a partir da altura em que os de baixo e os do meio se unem pelo mesmo sentimento — quando as condições subjectivas fazem a sua entrada em cena e se sobrepõem à hierarquia dos egoísmos — bem podem os de cima ameaçar com as mais atrozes penas do inferno, que nada destrói essa cumplicidade, até que uma nova síntese venha instaurar uma nova relação de forças.

Embora viessem a acumular-se sinais que indicavam estarem a ser ultrapassados os limites da tolerância para com a acção de alguns ministros, alguns deles objecto de escárnio e do anedotário nacional, os anúncios de 7 de Setembro canalizaram para o Governo as fúrias que até então iam sendo alimentadas e mantidas em ambiente controlado. Basicamente, nesse fim de tarde, o que disseram aos portugueses é que nem imaginavam o que os esperava a partir de 1 de Janeiro de 2013, que os esperava a descida aos infernos. Aquilo por que tinham passado desde que este Governo iniciou funções era, afinal, só o início de uma caminhada sem fim à vista.

Esta situação inesperada para as direcções dos partidos do centro-esquerda e das esquerdas criou um novo contexto no qual vão decorrer os congressos do PCP e do BE. As suas agendas sofreram uma súbita alteração nas prioridades: o que fazer dessas medidas, que resposta aos milhares de manifestantes, que alternativas para estas políticas? E no centro das respostas, a governabilidade do país obrigará a resolver a equação a que até agora todos se têm eximido: que política de alianças é possível e desejável construir para dar outro rumo ao país? Vários dirigentes daqueles partidos estiveram entre os milhares de manifestantes que saíram à rua para se opor ao Governo, mas nesta altura esse gesto ou tem consequências políticas ou não passa de um esotérico exercício de acrobacia partidária. É que nesta marcha, diferentemente do que simbolicamente se assinala no 25 de Abril e no 1.º de Maio, o que ficou sinalizado foi qualitativamente outra coisa, a radical oposição à austeridade dos que vivem exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho, dos precários, dos desempregados e dos pensionistas. Porém, o saldo das declarações daqueles que se pronunciaram no calor do desfile era de que o Governo perdera a legitimidade popular mas que a oposição receava entrar em cena. E essa, sim, é a verdadeira face da crise política. O interesse do país ou coincide com o interesse dos portugueses ou não passa de uma figura de retórica para encobrir a defesa dos interesses particulares. O segundo programa de austeridade em que se transformou o elenco das medidas preconizadas pelo Governo, carecendo de legitimidade popular, exige o escrutínio dos eleitores se não for radicalmente alterado. Caso contrário, aos que desceram à rua a 15 de Setembro não lhes restará outra alternativa senão o caminho da rua, outra vez, desta vez em duplicado.

7 comentários:

Fê-blue bird disse...

Não pode ficar assim, sob pena de banalizarmos a nossa luta e união.
Beijinhos

Graça Sampaio disse...

Se for preciso... lá iremos outra vez para as ruas. E outra e outra! Mas não esteja à espera que eles se demitem ou vão ser demitidos... Olha, olha, o Cavaco não tem to**tes para isso!

Janita disse...

Amigo Rodrigo.
Isto não pode nem deve ficar assim!
Agora que o povo se convenceu que só palavras não chegam, temos de passar à acção as vezes que forem necessárias.
Pelo menos para os fazer recuar nessas bárbaras medidas de austeridade - até me arrepio só de escrever esta palavra- porque sairem do poleiro, eles não saiem.
Um beijo.
Janita.

Rogério Pereira disse...

« (...)O tempo em que vivemos é o tempo da intensificação da luta de massas, é o tempo da acção convergente dos democratas e patriotas para romper com a política de direita, é o tempo de fortalecer a unidade e os movimentos e organizações unitárias dos trabalhadores e das massas populares, é o tempo de uma acção redobrada nas instituições e de, em todos os planos, lutar pela ruptura e por uma política alternativa." (...) "Um Congresso que determinará a resposta do PCP à situação do País e à concretização da ruptura com o rumo de desastre nacional em curso, apontando o caminho alternativo e a forma de o concretizar" (...) "O Comité Central propõe que neste Congresso se proceda a alterações ao Programa do Partido.(...)Assim se adianta como nova denominação do Programa: «Uma Democracia Avançada – Os valores de Abril no futuro de Portugal».

Jerónimo de Sousa - Discurso da Festa do Avante

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quando li o artigo esta manhã no Público, o que pensei foi que o papão da crise governativa não cola.
É melhor ter agora uma crise e cortar o mal pela raiz, do que arrastarmo-nos mais um ano nesta política e afundarmo-nos sem possibilidade de retorno.
Abraço

Pedro Coimbra disse...

"que política de alianças é possível e desejável construir para dar outro rumo ao país?"
A tal pergunta do milhão de dólares, Rodrigo.
Mas não contem com o PCP e o BE nessas contas.
Estes não são, nem querem ser, partidos de governo.
São partidos de oposição.
Com o casamento PSD/CDS à beira da ruptura, e não acreditando num casório PS/CDS (nenhum quer), lá vou eu inistir no centrão.
Está a chegar, Rodrigo, está a chegar.
Aquele abraço

Isa GT disse...

O Rogério fala de política de direita, eu falo de política dos ladrões... porque nós só vemos a face visível das raposas dentro do galinheiro... o poder económico já não precisa de comprar políticos, eles já moram dentro dos Partidos, da A.R. e do Governo... um regabofe que dura há muito tempo, vão saindo uns e entrando outros enquanto nós vamos ficando com as contas para pagar.
A lei aprovada na AR sobre garantir os prejuízos de não haver tráfego nas estradas foi aprovada numa altura em que nem sequer havia um Partido maioritário.
Enfim... no meio deste enorme regabofe, só me resta pôr o resto da esperança na ideia que ainda há cidadãos e políticos honestos que, no entretanto, queiram mudar alguma coisa, esqueçam as divisões ideológicas e façam algo do género do que respondi à Tita no meu blogue... vai ser preciso uma grande limpeza se queremos realmente salvar este país.

Bjos