terça-feira, 4 de setembro de 2012

«INDIGNAI-VOS!» de Stéphane Hessel



É um pequeno livro que encerra imensa sabedoria. A tradução portuguesa, publicada pela Editora Objectiva, veio a público em Março do ano passado. Nessa altura, já tinha vendido em França um milhão e meio de exemplares.
 
Foi um autor de 93 anos quem escreveu este manifesto veemente a coroar uma vida inteira dedicada à luta pelos direitos humanos.
 
Stéphane Hessel nasceu na Alemanha, mas refugiou-se em França com os pais, perseguidos pelos nazis. Naturalizou-se francês e tomou parte activa na Resistência, tendo sido preso duas vezes e internado em campos de concentração alemães de onde se evadiu. Depois de terminada a II Guerra Mundial, representou a França nas Nações Unidas e participou na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
 
No seu manifesto Hessel recorda o programa aprovado há sessenta anos pelo Conselho Nacional da Resistência francesa, o largo alcance social das medidas que preconizava e que foram concretizadas nos anos seguintes, mas que são postos em causa e atacados na Europa dos nossos dias. Pergunta porquê e responde:
 
«Apenas porque o poder do capital nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do Estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande.»
Por isso alerta:
«Os responsáveis políticos, económicos, intelectuais e a sociedade em geral não podem desistir, nem deixar-se impressionar pela actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia.»
E depois previne:
 
«A pior atitude é a indiferença, dizer «como não posso fazer nada, desenvencilho-me como posso» Este tipo de atitude conduz à perda de uma das componentes essenciais do ser humano. Uma das componentes indispensáveis: a capacidade de indignação e a consequente militância.»
 
 
Mais ainda do que no ano em que foi publicado, o apelo de Hessel à indignação tem plena actualidade no nosso país. Crescem todos os dias razões fortíssimas para nos indignarmos – o desemprego que alastra, a fome que se instala, os cortes de subsídios e de salários, as colossais fortunas dos senhores que dominam o país, as vergonhosas negociatas dos governantes, como a que se prepara na RTP – entre tantas outras.
Na lógica de Hessel, é preciso que a indignação se transforme em militância.
 
(A edição portuguesa é prefaciada por Mário Soares e está à venda nas livrarias.)
 
Carlos Brito ( Edição de Setembro do «Jornal do Baixo Guadiana»

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4 comentários:

Graça Sampaio disse...

Também já li e achei o máximo. Mas homens com essa fibra (e com a do Mário Soares, goste-se ou não dele) já não se fazem. Pelo menos cá em Portugal.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pois é caro, Rodrigo. Como diz a Graça, políticos assim já não há...
Abraço

Rogério Pereira disse...

Tendo ontem colocado um video da Rita Rato é evidente que não que queixo de não haver hoje como os havia antigamente...

Depois há um aspecto que sistematicamente não se leva em linha de conta e ao que chamo a descontextualização da história. Por exemplo: contra o nazismo ou contra o salazarismo o odioso estava ali, o regime era claramente de ditadura e havia pouco lugar para maias tintas... hoje é bem diferente. Aponta-se o odioso às segundas, quartas e sextas e convive-se amigavelmente com ele às terças, quintas e sábados. Num ano está-se a dar lições na universidade do PSD, no ano a seguir está-se a prefaciar um livro de um resistente...

Pedro Coimbra disse...

A indignação é um direito e um dever, Rodrigo.
Cada vez mais!
Aquele abraço