terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um Poema de Natal

NATAL


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.


Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.


Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.


Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.


Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.


Manuel Alegre

4 comentários:

flor de jasmim disse...

Poesia è amor que faz girar o mundo, é música que nos faz vibrar é sonho que nos faz viver.

Beijinho

Fê-blue bird disse...

Amigo:
Ao ler este belíssimo poema do Manuel Alegre, estava a ouvir a sua voz, e que voz ele tem para dizer poesia.
"Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia."
Parabéns pela escolha!

beijinhos

folha seca disse...

Caras flor de Jasmim e Fê-Blue bird
Era um jovem Operário-Estudante para aí com 13/14 anos, trabalhava de dia e estudava de noite.
A minha professora de Português durante uma aula, deu-me um texto para ler. Muito jovem, mas já grande pela experiência de vida e marcado por uma terra onde poucas famílias não tinham alguem que tivesse passado pelas prisões. Li o texto, recordo como se fosse hoje que lá para o final embatuquei, dizia-me algo, vi o meu Avô a escrevê-lo. Marcou-me. Demorei Anos a perceber e a saber quem era o autor e o nome do texto.
Manuel Alegre- Rosas vermelhos
Beijinhos

Isa GT disse...

Nada como o Natal para amolecer o coração... apesar do meu, este ano, estar a precisar de ficar mais tempo... de molho, para ver se resulta ;)

Bjos