domingo, 5 de agosto de 2012

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
          
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
           
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
          
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...         
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
          
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
          
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

    Álvaro de Campos

6 comentários:

Rogério Pereira disse...

Hoje estou
sem tempo para entretantos
Por isso rejeito o poema
Mesmo esse de Álvaro de Campos
E também estou contra
o ditado popular
que não deixei de relacionar
Hoje a "minha onda" está transformada em ordem

Não guardes para depois de amanhã o que podes fazer a seguir ao dia de hoje. E hoje faz o que poderes para antecipar o futuro...
Eu faço-o, juro!

folha seca disse...

Caro Rogério

“um passo atrás dois para a frente.” Alguém terá dito mais ou menos isto. A leitura do poema pode ter alguma semelhança. Sobre o ditado popular (presumo que se referia a um comentário que lhe deixei) respondo-lhe com o poema de brecht.
Abraço
Rodrigo

quem és, que fazes aqui? disse...

Será que amanhã ou depois não será muito tarde?

Estou com o Rogério!

Beijo

Laura

Graça Sampaio disse...

Bem! Eu ia lendo e ia sentindo que o que estava a ler era bom de mais, belo de mais, por de mais ao meu jeito e ao meu gosto!

No fim é que percebi: Álvaro de Campos - o meu poeta n. 1, e 2 e 3....

(Já) não conhecia este poema - que eu li-os todos, todos nos anos 70 quando me foi dado conhecer o "meu" poeta Álvaro de Campos.

Bem haja.

Pedro Coimbra disse...

Eu, hoje, passo aqui para lhe desejar uma boa semana, Rodrigo.
Aquele abraço!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Como só hoje chego aqui, será já amanhã?
Como diz o Rogério depois de amanhã é muito tempo...
Abraço