sexta-feira, 24 de junho de 2011

As Nossas Esquerdas

Não pretendendo entrar em grandes considerações teóricas, parece-me haver um défice de discussão à volta das consequências actuais e futuras pelo facto de termos em Portugal o governo mais à direita do Portugal Democrático, com a agravante de um velho sonho da mesma direita se ter concretizado: uma maioria, um governo e um presidente.
Sou dos que não tenho ilusões de que tudo o que aí vem só vai piorar a desgraçada situação que se vive em Portugal. Também sou dos que pensa que a continuação da situação anterior com ou sem eleições também não interessava a Portugal e aos Portugueses. Claro que estou a dar “uma no cravo e outra na ferradura”. Sim, seria isso se de facto aceitássemos que o que tínhamos era um governo de esquerda e se a vitória do partido que o sustentava tinha uma prática política de esquerda.

Não pretendo voltar a acusar ninguém. Fi-lo durante muito tempo. Infelizmente fui dos que previ antecipadamente o desastre, chamei as pessoas pelos nomes. No entanto não estou nada feliz pelo desfecho e por ter tido razão antes de tempo.

Já li em qualquer texto a afirmação de que “a esquerda é estúpida”. Tenho que concordar. Temos de facto uma esquerda estúpida que não percebeu que durante mais de 30 anos à traulitada entre si, entregariam à direita o poder, sabe-se lá até quando.

Tenho seguido com a atenção possível a discussão pós eleitoral no interior dos partidos de esquerda. Agrada-me ouvir da boca dos, até agora 2 candidatos a secretário-geral do PS afirmações e constatações pela boca de quem não a abriu quando devia. Só não consigo perceber quando se diz que que o aparelho do PS está minado por dentro, como é que o processo eleitoral a secretário geral, pode ser bem conduzido, dando só como exemplo os presidentes das federações Distritais, cujo papel no apoio a um ou outro dos candidatos tem sido crucial. Como vai lidar o futuro secretario geral com as federação adversas?

Desagrada-me continuar a ver o imobilismo do PCP em que apenas transforma uma pequena vitória no Distrito de Faro, numa vitória Nacional, apesar de como se sabe subir em percentagem e deputados (mais 1) mas em termos absolutos reduziu o número de votos. Quanto ao Bloco de Esquerda, tardiamente desenvolve-se alguma discussão e se creio estarem a sair os melhores, enquanto alguns se seguram aos lugares como se a derrota estrondosa que sofreu, não tivesse culpados.

As esquerdas são plurais, mas só na unidade poderão, quando for o momento oportuno e se souberem criar alternativas credíveis, alterar os caminhos que estão em desenvolvimento em grande parte graças à tal “estupidez da esquerda”. Será que deu para aprender qualquer coisinha?

8 comentários:

Rogério Pereira disse...

Três condições básicas (quanto a mim) para se aprender qualquer coisinha:

1ª - Para se discutir o sentido seguido, os erros, os insucessos e o futuro da esquerda, é indispensável não esquecer como surgiram e evoluiram os partidos que a compõem. A génese das coisas se não são determinantes, são pelo menos a não desprezar
2º - Sendo que os partidos se formam na base ideológica e representam interesses de classe (assumida ou dissimuladamente) é indispensável perceber, pela prática politica, quais os interesses efectivamente defendidos. E não só quais, como também como.
3º - Sendo que as classes sociais deveriam sentirem-se representadas por partidos, importa saber como evoluiram em dimensão, em comportamento cultural e nas relações de dependência económica: a classe operária, os assalariados rurais, os trabalhadores de serviços e do comércio, as profissões liberais, etc.

Meu caro, fora disto pode discutir o que quiser e chegar às conclusões que lhe parecem mais evidentes, mas certamente não fez mais doque facilitar a análise de uma coisa que não é fácil de ser analisada.

Outra coisa: a História não parou no dia 5 de Junho!

folha seca disse...

Caro Rogério
Este post tem como objectivo "provocar" a discussão dum assunto que me parece não o estar a ser suficientemente. A polémica pode dar um bom contributo no aclarar de ideias.
Claro que no "fundamental" estou de acordo com o que escreveu, especialmente com o parágrafo final. Pois essa é a questão que mais me preocupa. Nada do passado podemos alterar. Mas muito no futuro podemos construír... haja ferramentas.

Rogério Pereira disse...

Caro Folha Seca,

As mutações nas classes sociais são importantes, mas para analisar, por exemplo perdas eleitorais do PCP terá que ir aos dois outros pontos.
O primeiro, conhece os termos do texto da proclamação da fundação do Partido Socialista?

O segundo, conhece quantas e quais as iniciativas legislativas da direita que tiveram a aprovação da "esquerda"? E quais as desta "esquerda" que tiveram o apoio da direita? Não sabendo, como se pode concluir da não existência de uma aliança favorecendo o crescente poder da direita e o acentuar do afastamento dos principios e valores de Abril? Sempre que o PS esteve em maioria qual foi a sua politica? Não estou a atacar, estou só a questionar, pois eu próprio me interrogo... Quanto ao papel do PCP e à situação eleitoral com os resultados que obteve agora´só lhe digo que parece milagre (mas não é) que tenha sobrevivido. Depois de se ter oposta à entrada na Comunidade e de ser bombo da festa na época da abastança de Euros, contra a corrente, enquanto o aparelho produtivo e o sistema de ensino iam sendo devastados silênciosamente (mas de modo sistemático) parece milagre (repito) que a CDU sobreviva.

Sou comunista desde muito "puto", apenas inscrito em 1976. Mas sabe que só após a minha reforma é que o pude afirmar e ser militante? Sabe o que custa sê-lo em muitas actividades e empresas desde os anos 80? E ser sindicalizado? E ser delegado sindical? A luta agora é diferente mas não é mais fácil do que o era no tempo do marcelismo. Tenho uma réstea de esperança e que é assim: as pessoas quando falam em abstrato quase todas dizem o que o Folha Seca diz no seu texto, sobre o PCP. Quando falam no concreto, reconhecem-lhe ética, principios, valores e um grande amor ao nosso povo. Há lá gente quadrada? Há, claro. Como poderia não haver se somos do mesmo barro...

Isa GT disse...

Daqui a dois anitos... conversamos.
Tenho quase a certeza que muitos votaram sem perceber muito bem onde se iam meter...
Estamos em democracia... vamos ter o que a maioria escolheu.
O mais interessante é que vamos privatizar o resto dos aneis ;) e não vamos sair do buraco, apesar das pessoas estarem convencidas que sim... mas como eu já disse... falamos em 2013/14... espero estar redondamente enganada mas, nessa altura, a esquerda até pode ter aprendido umas coisas e blá, blá blá... só que vai ser tarde demais.

Bjos

Rogério Pereira disse...

Isa (com sua licença, Rodrigo) nem lhe passe pela cabeça que as lideranças fazem o que fazem por ignorancia e que haverão que aprender e quando tal acontecer será tarde. Nada disso. Tudo o que foi feito, foi-o de modo consciente e com objectivos claros. Nenhum dos agentes de hoje se retratará nesse amanhã próximo. Não me admira que Sócrates em 2013 seja pago para dar conferências...

folha seca disse...

Caro Rogério
Não foi de forma alguma minha intenção trazer para aqui uma qualquer tese filosófica sobre as "esquerdas". A intenção foi mostrar que há culpas no cartório em todas as que se reivindicam dessa àrea. Acho que não há inocentes. Sobre o PCP e a ideia que tem sobre a minha relação com esse partido. talvez ainda hoje lhe demonstre que está enganado. Só renega o seu passado quem fez algo que o envergonhe.
Mas o objectivo está a ser conseguido. Discutir... o quanto isso é preciso.

Isa
Nunca é tarde de mais para aprender. Basta querer.

Anónimo disse...

Caro folha Seca
Então o que queria o meu amigo,que fizessemos que não era nada connosco e votassemos PS.Não podia ser.O PS sofreu uma pesada derrota e bem,para apreender com os erros e praticar uma politica masis à esquerda.Não está a ver o António Seguro a apelar a esquerda para reforçar o PS.Pois é,e quanto ao PCP,parece que já foi morto e enterrado não sei quantas vezes.Mas não perdeu cerca de 5000 votos,mas subiu em percentagem e deputados..Num quadro em Que o PS perde 500mil votos e só a direita sobe.Portanto há um crescimento sustentado e uma grande confiança na luta e na resistência contra as medidas gravosas das troikas.Agora o PS é que tem de estar a altura das suas responsabilidades se quere ganhar credebilidade.

folha seca disse...

Caro Anónimo
No que respeita ao voto no PCP, ele é o voto mais legítimo e puro dada a sua fidelidade. No entanto tenha em conta que em pouca mais de um duzia de anos perdeu mais votos do que os que mantém. Não esqueça que já teve uma votação superior a um milhão de votos. Eu penso que isso se deve ao facto de nunca se apresentar como partido de poder.
Quanto ao PS ainda não é agora que vai virar "suficentemente" à esquerda.Quando vejo recentes Sócratistas de repente a falar nos erros do dito. Nah!há qualquer coisa que não bate certo.
Cumprimentos e volte sempre.