segunda-feira, 4 de junho de 2012

CURSO DE ESCUTATÓRIA

Belo texto do Rubem Alves sobre a incapacidade de ouvir, muitas vezes porque estamos dominados por nossa arrogância, nossa vaidade. As vezes porque nos julgamos bons demais, ocupados demais e ouvir dá trabalho, requer tempo, atenção, doação. E a vida passa tão depressa, não é mesmo? Seja qual for a nossa justificativa, afinal, são tantas, merecemos parar um pouquinho e apreciar essa leitura. Espero que gostem.

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil….

Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas… Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios….

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves é escritor, professor e psicanalista, nasceu no dia 15 de Setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais.

Surripiado aqui (através de José Zaluar)

8 comentários:

Gisa disse...

Uma das minhas grandes falhas, sou uma péssima ouvinte.
Estou em constante processo de guarda para que a modificação se opere. Sei que é um trabalho difícil, mas uma vez o problema detectado, tudo torna-se mais claro. Já melhorei muito, mas tenho ainda muito a melhorar.
Um grande bj querido amigo

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não sei porquê, Rodrigo, mas tenho a impressão que o ex-PIDE e o Relvas frequentaram um curso desses. Só dizem aquilo que não os comprometa...
Abraço

Rita Esteves disse...

Olá Folha seca,
Escutar sempre foi mais dificil. Então se não concordamos ainda é mais dificil. Julgamo-nos melhores, sim senhor, e não sabemos argumentar/criticar. Somos contra e ponto final. Argumentar em contradição há pouco quem saiba....mas muito sabe quem conhece a própria ignorância!

Beijinho

Rogério Pereira disse...

Excelente texto... Sempre fico deliciado quando alguém grande cita gente nossa.

Eduardo Galeano dizia: Escutar é o primeiro acto inteligente do homem, falar é o segundo. Não é por acaso que a natureza nos deu dois ouvidos e uma só boca...
(não coloquei aspas porque citei de cor)

Fê-blue bird disse...

Meu amigo, sou uma boa ouvinte e pago caro por isso :)
Ultimamente até me afasto das pessoas que se habituaram a ver-me com este predicado.
Por isto cansa mesmo :D

beijinhos e boa semana

Graça Sampaio disse...

Grande pensador, Rúben Alves! Tem textos maravilhosos. Ouvir é sempre muito difícil para os portugueses em geral. Tenho pena de o dizer, mas são/somos muito arrogantes e muitos cheios de si - sinal de alguma ignorância e convencimento.

Pedro Coimbra disse...

Rodrigo,
A grande diferença entre ouvir e escutar.
Ouvir, é fácil.
Escutar, isso já é um bocado mais complicado.
Conhece a música de Mike and the Mechanics, The Living Years?
A letra gira muito à volta desta diferença.
Aquele abraço

Júlio disse...

Belo texto este que o Rodrigo nos trouxe. Quantas vezes já estive naquele retrato? É extraordinária a simplicidade e a beleza com que o autor nos faz reflectir sobre males tão recorrentes na natureza humana. Faz lembrar os dizeres de outro sábio, as Conversas vadias do Prof Agostinho da Silva.