terça-feira, 19 de junho de 2012

O meu amigo Manel (post reeditado)

Ontem, como faço muita vez ao Domingo fui até à beira mar. Quando já estava de regresso vejo ao longe alguém num local isolado, que me pareceu conhecido. Enquanto fazia a manobra fui-me aproximando e depois de me certificar que era o Manel a ele me dirigi para o cumprimentar.
Vi logo que não estava bem pareceu-me que tinha limpo à pressa as lágrimas que teria estado a verter. Depois do cumprimento fomos beber um café.
Percebi que precisava de um ombro pois conhecia-o muito bem e ambos tínhamos muito em comum. O nosso passado de operários vidreiros onde se usava uma linguagem um bocado “grosseira” onde os palavrões eram usuais, fez com que a conversa fosse mais fácil.
Enquanto estávamos no café falámos de coisas banais dado que havia alguma gente perto e não estávamos à vontade para desabafar.

Já na rua e direitos à foz do Lis em jeito de passeio lá foi contando as suas desgraças. Merda de vida a minha Pá! Como sabes desde criança que trabalho, nunca recebi um tostão de qualquer subsídio, de doença ou doutra coisa qualquer, até quando estive desempregado, nada. Hoje como sabes à custa de muito esforço criei a minha empresa e tenho 30 colaboradores. Até a meio do ano passado estava tudo a correr normalmente, embora com tendência ao decréscimo nas vendas e a maior dificuldade nas cobranças. Sempre trabalhei com dinheiro dos bancos sem nunca ter tido qualquer incidente. No que respeita a impostos tenho tudo em dia. Não devo um tostão aos meus colaboradores. Sou solidário com os trabalhadores vítimas dos roubos que esta corja que tomou conta do poder, lhes estão fazer. Até já tenho ido a manifestações como nos velhos tempos.

Fui ouvindo em silêncio o desfiar de infortúnios do meu amigo. Senti que precisava de falar e sobretudo ser ouvido.

Voltando à conversa, questionei. Então se tens as contas todas em ordem o que é que se passa? Pois lá ter ainda tenho, salvo as de alguns fornecedores com quem já me estou a atrasar e sem matéria prima, nada a fazer. Voltei a questionar. Então os Bancos aqueles fundos especiais que os governos têm posto à disposição das PMES, etc… etc…?
Não me fales nisso! Nesses ladrões que na altura em que mais precisamos é quando nos tiram o tapete. Repara, quando precisamos de reforçar os apoios de tesouraria para fazer face à crise é que me estão a exigir que amortize as contas caucionadas e cortam-nos os plafonds de livranças e o que mantêm é com juros altíssimos. Quanto aos apoios governamentais, nada nunca recebi um tostão nem de governo nenhum nem da CEE ou lá do raio que os parta. Tu sabes como é que fiz, sabes que trabalhei que nem um “Galego” passei mais de uma dezena de anos em que não soube o que foram férias e quando as comecei a ter, nunca passaram de uma semanita e nunca saí do País.
Sabendo que era tudo verdade acenei em jeito de confirmação e disparei. Mas ó Manel, se calhar tens que dispensar pessoal para ver se aguentas. Os olhos saltaram-lhe das órbitras quase que me fulminava e remata. Isso? Achas que sou capaz de despedir alguém, eu fazer como os patrões reaccionários fascistas, despedir trabalhadores?

Mais um intervalo. Mais um cigarro e voltei à carga. Olha, tens 30 colaboradores por este caminho e pelo que me contas e ainda sabendo nós que a situação económica do País ainda vai piorar mais,  é evidente que não os vais conseguir aguentar todos. O meu amigo respirou fundo, indiciando que já tinha pensado no assunto o que a seguir confessou e disse-me: Olha, por enquanto vou tentar outra solução. Vou vender uma propriedade que é a única coisa que tenho meu, fruto do meu trabalho, vou reforçar o capital da empresa, tentar ver como aguentar e depois logo se vê. Mas se esta merda continua assim não sei se daqui por uns meses não estou na mesma. Aí só me resta dar um tiro na cabeça ou no mínimo guardar uns trocos e pirar-me daqui para fora.

A conversa prosseguiu depois deste momento emocionante onde senti que pouco podia ajudar, para além de o ouvir.

Depois recordámos os nossos sonhos, ainda quando era proibido, falar em liberdade. Das manifestações, das greves das cargas policiais, da alegria com que vivemos o 25 de Abril dos sonhos, da nossa militância partidária, das razões que levaram a este estado de coisas e sobretudo debruçámo-nos muito sobre a falta de alternativas credíveis para pôr termo a isto. Terminámos com um até já (pura e simplesmente).


1ª publicação em 05 Março 2012

9 comentários:

Rogério Pereira disse...

Pois é meu caro, a estatística tem gente, por dentro. Gente e ... sofrimento.

http://www.insolvencia.pt/noticias/1-noticias-/6546-empresas-fecham-a-um-ritmo-de-100-por-dia.html

São disse...

Se tivesse que falar , a voz sairia embargada...

O meu abraço solidário e indignado

Francisco Clamote disse...

Nem sei que diga. abraço.

Vítor Fernandes disse...

Eles comem tudo e não deixam nada.
Os vampiros reinstalaram-se no poder.
Só esperaram quarenta anos... nem isso.
E nós deixamos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Se quem manda visse nas pessoas algo mais do que números...
Sei bem do que fala o seu amigo, caro Rodrigo, pois tenho um sobrinho que tem uma empresa e está no mesmo dilema. Fechar e despedir toda a gente, ou aguentar o barco até ao naufrágio que adivinha como certo.
Grande abraço

Pedro Coimbra disse...

O seu amigo não recorre à solução mais fácil, Rodrigo.
Espero que seja recompensado por isso.
Que Deus lhe dê forças!
Aquele abraço

Marta disse...

Infelizmente esse drama está a ser vivido por muita gente. De referir que foi bonito o gesto de te colocares à disposição para que o teu amigo pudesse desabafar.

Prof Ms João Paulo de Oliveira disse...

Caro confrade Rodrigo!
O mais importante nesta desalentadora história foi o seu gesto solidário!!!
Caloroso abraço! Saudações fraternais!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

Flor do Liz disse...

Gente honrada, séria e moira de trabalho, neste País, não vai muito além...
Mas, pelo menos, há sempre um ombro amigo.

Um abraço