terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pra não dizer que não falei das flores ...



Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Barco à Deriva

BARCO À DERIVA
Poema de Antonio Miranda

Antes que os edifícios invadissem as dunas,
que os peixes expostos em entrepostos,
que os portos congestionados, ondas
estancadas, maré sem retorno, nãos.

Pássaros sem pouso, nuvens estagnadas.
Ilhas (ainda) desabitadas, escaladas impossíveis.
Sonhar. Ares degradados, repouso, vácuo
e um olhar sem rumo, sem prumo, turvo.


Dever haver uma saída, janela, fosso,
muro abrupto, caminhos interrompidos.
Deve haver uma saída, escada, cadafalsos,
mapas imprecisos, vestígios indecifráveis.


Antes que a orla virasse muralha e vidro,
horizonte tapado, visão retroversa, errática
onde os peixes, onde os pássaros, ondas, ais.
Deve haver alguma saída. Antes que os.


Digo na minha declaração de intenções, que o que publico corresponde ao meu estado de espírito. Como escrever poesia não é coisa para que tenha dotes, faço muita vez das palavras dos poetas (uns mais concidos do que outros) as minhas.

sábado, 28 de janeiro de 2012

ZECA SEMPRE. O que faz falta...


Naturalmente que o original é sempre o autêntico. No entanto ouvir o Zeca em canções com um grande simbolismo, cantadas por novas gerações, não deixa de ser significativo e demonstrativo que as suas canções são intemporais. Nos tempos que correm é importante de facto: avisar, animar e empurrar a malta!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Lançamento de “Almas que não foram fardadas”

Não é muito frequente assistir ao lançamento de um livro em que sentimos que pelo menos uma virgula das que lá constam , é nossa. Naturalmente que neste caso estaría lá mesmo sem a vírgula. Mas deixo para os entendidos as palavras que neste momento há a dizer.

Almas Que Não Foram Fardadas é a primeira obra de Rogério Pereira. O autor, que revela paixão e vontade de partilha de emoções e factos, decidiu colocar, numa prosa pejada de poesia e expressões de oralidade local, uma vivência  própria de quem enfrentou e viveu por dentro a Guerra Colonial em Angola (1969-1971), lado a lado com muitos nomes desconhecidos para a maioria mas muito caros para o autor, de um tempo que a actual geração praticamente desconhece.

 A apresentação da obra terá lugar no próximo dia 28 de Janeiro (Sábado), às 16:30, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, nas Galerias do Alto da Barra, no Concelho de Oeiras. A editora EMACO e o autor têm o prazer de convidar todos os que queiram marcar presença neste evento especial, que terá intervenções do Coronel Barão da Cunha (que apresentará a obra), de Eufrázio Filipe (ex-autarca e escritor) e de Jorge Castro (poeta), com leitura de algumas das mais belas passagens deste livro de memórias.

“Não é, apenas, mais um livro…”, refere Rogério Pereira, situando a sua escrita na preocupação de não fazer com que o tempo dilua a memória. “É um narrar de uma «viagem imposta», sem trama de personagens urdida em torno de um qualquer fio de outra história, que não seja aquela que é possível ir buscar à minha memória sobre gentes, lugares, afectos, cumplicidades e medos, tidos e havidos em Angola, na Guerra Colonial, entre 1969 e 1971. Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma, as principais personagens, teremos a acompanhar-nos actores secundários, de entre gente de dois  continentes: mouros, negros, índios, mestiços, falsos brancos e brancos mesmo, daqueles que se consideram com ‘pedigree’ e tudo. Eles, suas almas e contrários. Os lugares a contar, de onde os testemunhos são recolhidos, são: Luanda, Maquela do Zombo, Nharea, Umpulo e Nova Lisboa. Memórias minhas, que partilho”.

Autor do blog http://conversavinagrada.blogspot.com/ que alimenta com regularidade, Rogério Pereira nasceu em 1945, em Lousa (Concelho de Loures) descrevendo-se em três entidades: “Eu, Minha Alma e Meu Contrário, nascidas no mesmo momento e, a partir daí, sempre complementares, partilhando as várias experiências de vida, desde a Lisboa que nos viu crescer e frequentar o ensino de menino, à passagem pela indelével vertente militar (parte dela descrita no livro) e às muito variadas realidades profissionais”.

 Da escola, que não lhe foi nada primária, a Alma do autor não se sentiu diminuída por frequentar como operário o ensino industrial, ingressando depois num curso médio não terminado, “não por cabulice mas por pressa de viver, casar e ser pai”.

 Após quatro anos de serviço militar, o Autor e o Seu Contrário despiram uma farda que a Alma nunca vestiu, ingressando no mercado de trabalho, numa função fabril que, contudo, não durou muito. Seguiu-se uma carreira de consultoria em organização e gestão que o mesmo define como “um verdadeiro ‘boomerang’, lançado para novos rumos e com regressos festivos e melhorados em salário, categoria e respeito profissional”.

 No que se refere à escrita, a sua lista é infinita, mas até à preparação do livro Almas Que Não Foram Fardadas, nada reflectira em letras sobre a vida. Apenas desenvolvera relatórios e textos para conferências em ilustres parlatórios, alguns artigos técnicos e os conteúdos do blog. “Só agora aconteceu a partilha de cenas da minha vida, com este livro meu”.


Escrito por Rui Cardoso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Contágios

Há muitos anos vi um filme de que não registei o nome, os actores, o realizador ou mesmo a época em que era passado. Aliás  o que aconteceu a muitos dos filmes que vi.
Mas há algum tempo que este filme em particular me vem à memória. Naturalmente que isto acontece por razões que me tocam (lá estou a olhar para o umbigo) mas penso que não é só a mim.
Esse filme retractava um dos períodos em que havia uma grande epidemia de Lepra que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo, embora estivesse mais localizado em determinadas zonas do globo.
Recordo que uma das grandes preocupações dos efectivamente contaminados era o de se esconderem para não serem enviados à força para os campos de leprosos, onde a única certeza era a morte.

Mas havia um outro problema. A paranóia sobre o efeito de contágio era tal, que quem tivesse uma simples borbulha visível também tinha que se esconder para que não lhe fosse diagnosticada essa terrível doença de que não padecia. Mas a delação, o diagnóstico improvisado das autoridades fazia com que gente saudável fosse enviada à força para os campos de leprosos, onde inevitavelmente a morte era o destino, porque o contágio os fazia inevitávelmente contrair aquela doença (naquele tempo mortal).
Fico por aqui.