quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"O menino que Gaspar não conhece"

 
Nicolau Santos (www.expresso.pt)
13:59 Quarta feira, 21 de novembro de 2012

 

Supermercado do centro comercial das Amoreiras, fim da tarde de terça-feira. Uma jovem mãe, acompanhada do filho com seis anos, está a pagar algumas compras que fez: leite, manteiga, fiambre, detergentes e mais alguns produtos.
 
Quando chega ao fim, a empregada da caixa revela: são 84 euros. A mãe tem um sobressalto, olha para o dinheiro que traz na mão e diz: vou ter de deixar algumas coisas. Só tenho 70 euros.
 
Começa a pôr de lado vários produtos e vai perguntando à empregada da caixa se já chega. Não, ainda não. Ainda falta. Mais uma coisa. Outra. Ainda é preciso mais? É. Então este pacote de bolachas também fica.
 
Aí o menino agarra na manga do casaco da mãe e fala: Mamã, as bolachas não, as bolachas não. São as que eu levo para a escola. A mãe, meio envergonhada até porque a fila por trás dela começava a engrossar, responde: tem de ser, meu filho. E o menino de lágrima no canto do olho a insistir: mamã, as bolachas não. As bolachas não.
 
O momento embaraçoso é quebrado pela senhora atrás da jovem mãe. Quanto são as bolachas, pergunta à empregada da caixa. Ponha na minha conta. O menino sorriu. Mas foi um sorriso muito envergonhado. A mãe agradeceu ainda mais envergonhada. A pobreza de quem nunca pensou que um dia ia ser pobre enche de vergonha e pudor os que a sofrem.
 
Tenho a certeza que o ministro Vítor Gaspar não conhece este menino, o que seria obviamente muito improvável. Mas desconfio que o ministro Vítor Gaspar não conhece nenhuns meninos que estejam a passar pela mesma situação. Ou se conhece considera que esse é o preço a pagar pela famoso ajustamento. É isso que é muito preocupante. 

6 comentários:

Observador disse...

Caro Rodrigo
Acontecimentos como o que aqui é reproduzido, da responsabilidade de Nicolau Santos, começam a engrossar as filas da miséria social no nosso país.
O Vítor Gaspar não conhece esse menino. Nem outros. Nem as mães. Nem a dificuldade que muita gente tem em gerir o que se transformou, passo a passo, num autêntico inferno.

Não desejo que os Gaspares do planeta passem fome. Exijo, isso sim, que pensem uma, duas, três vezes antes de tomarem decisões.

Um abraço

Luciano Craveiro disse...

Nesta estória antevejo o meu próprio futuro! Com a falência da Segurança Social, lá teremos nós que viver da caridade! Tristeza!

quem és, que fazes aqui? disse...



O Gaspar (o que nos vai ao bolso e não conhece o menino) nunca foi menino e nunca comeu bolachas.

Andou na escola e transformou-se no 'monstro papa bolachas' dos nossos filhos.

Que RAIVA!

Partilhei isto, ontem, no Fb.

Beijo

Laura

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Gaspar não conhece o menino, nem sabe que existem pessoas, Rodrigo. O negócio dele é números!
Abraço

Janita disse...

Acho que não podemos culpar somente o Gaspar, Rodrigo!
Talvez o desperdício e o consumismo excerbado de gerações anteriores, tenham contribuido para que muitos meninos de hoje e de amanhã, se vejam privados não só de bolachas, mas também de pão.
Seria bom que nos debruçassemos um pouco mais sobre a abastança desenfreada de um passado recente!
Um beijo.

Pedro Coimbra disse...

Pois é, Rodrigo.
Números, estatísticas, impressionam.
Um menino, aquele menino, o concreto, choca, revolta.
Uma grande abraço e votos de bfds caro amigo!!