Bem. Ficava mal não dizer nada sobre o natal. Mas como não tenho grande jeito para isso mais uma vez recorro a um dos meu cantores preferidos e roubo-lhe a mensagem.
Boas festas (ou as possíveis) para todos os amig(a)os!
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
Páscoa e bons "Padrinhos".
Em véspera do dia de Páscoa e como não tenho nem nunca tive
afilhados e os padrinhos já foram, dei comigo a pensar no significado desta
palavra “padrinho” sim porque madrinha é na nossa sociedade apenas o
prolongamento do dito padrinho.
Pelo que sei e nesta área é muito pouco, padrinho significa
uma espécie de segundo pai e consequentemente segunda mãe, ou seja em caso de
uma qualquer fatalidade e pela tradição católica (nem sei como é nas outras) os
padrinhos (e madrinhas) devem-se substituir aos pais (corrigiam-me por favor,
se não for assim).
Ora bem. Como não me perguntaram se queria ser baptizado e
em qual das religiões existentes à época, lá me lavaram a cabeça numa das pias
da igreja católica, não me lembro mas deve ter sido mais ou menos isto. Nem me lembro
sequer se barafustei, mas pelo que ainda hoje vejo, imagino que sim.
Mas esta conversa que não desata daqui tem outro objectivo,
falar (ou tentar falar sobre padrinhos). Acho que sempre ouvi a utilização da expressão
“padrinhos” muitas vezes relacionada com outros aspectos da vida que não o
sentido canónico/religioso, mas no que diz respeito à “sorte” na vida. Embora
me pareça que esteja um pouco em desuso esta expressão, ainda me lembro que por
estas bandas quem ascendia a um lugar um pouco mais elevado, era por ter um canudo
(coisa rara, noutro tempo) ou por ter um bom padrinho, para conseguir um emprego
numa determinada empresa (independentemente do lugar, era precisa a cunha de um
padrinho) consta até que um tal de primeiro-ministro deste desgraçado País, só
lá chegou graças ao seu “padrinho” (um tal de Ângelo qualquer coisa).
Como dentro de alguns meses vamos eleger novamente uma
catrefada de deputados e nessa altura a Páscoa já lá vai, certamente que os “padrinhos”
vão continuar a ter a sua importância. Quatro anitos como deputado da Nação,
vale mais que um bom folar e é a esses “padrinhos “que há que tratar bem. Né!?
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
"Venho dizer-vos que não tenho medo!"
Este poema de Manuel Alegre cantado por Luís Cília e pelo
Adriano transmitiu-nos uma mensagem que muitos de nós, mais ou menos jovens
adoptamos como nosso. 32 anos depois do Adriano nos deixar, faz todo o sentido
ouvi-lo e interrogarmo-nos se o “medo”
ainda anda por aí ou se a afirmação do poema se mantém. No que me diz respeito
sim, tenho medo! Não de ter que ir combater numa guerra que sabia, injusta. Não
de enfrentar uma hipotética detenção e tudo o que se lhe podia seguir. Já não
tenho medo do Salazarismo e do Marcelismo, da PIDE ou da DGS. Tudo isso faz
parte da História, trágica mas é passado sem deixarmos de lutar para que esse
período negro se não apague das nossas memórias. As suas vítimas merecem-nos
isso.
Mas sim hoje tenho medo. Será cobardia confessar os medos
que se vão apossando de nós? Sim eu tenho medo! Tenho medo dos poderes
instalados, não do poder da direita que hoje domina, esse sabe-se como o
combater. Mas há outros poderes que dominam as forças que o deviam combater,
atrevo-mo a dizer, até a vanguarda que só o é numa espécie de faz de conta. Sim
tenho medo que as gerações que nos sucedem assistam apáticas a isto tudo e por
que não lhe conseguimos transmitir a ideia de que “temos que ser nós a fazer o
que tem que ser feito”.
Sim tenho medo!
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Olá Carreira! Hoje mando-te um cravo.
Há dois anos atrás escrevi no meu blogue uma carta ao
Joaquim Carreira. Hoje procurando alinhavar algumas palavras, não encontrava
nada de novo e à falta de melhor repito esta publicação, homenageando-o neste
dia, após 3 anos da sua partida.
Sabes meu caro ? De vez em quando dão-me assim uns sintomas esquisitos e ponho-me a escrever para quem nem sequer o endereço conheço. Parvoíces, mas…Pronto como já cá não estás deu-me para isto, podia ser pior.
Faz exactamente hoje um ano que decidiste ir embora, eu bem
te pedi para aguentares, mas “teimoso” como sempre, tinhas que escolher esta
data histórica para que tanto contribuíste uma vida inteira, partires. Acho que
já disse em qualquer lado que nos estragaste a festa. Não, não estragaste nada,
talvez contribuísses para que ela fizesse mais sentido. Sim porque comemorar
Abril faz-se com festa mas também com a noção de que Abril aconteceu porque
muitos como tu abnegadamente e sem esperar nada em troca deram o corpo às
balas, à tortura, ao degredo e à clandestinidade, abdicando duma vida própria
para que hoje estejamos a comemorar a liberdade.
Mas olha por cá as coisas não estão nada famosas. As forças
revanchistas apossaram-se do poder, não porque a direita ultraliberal “ganhasse”,
mas porque a esquerda incapaz de criar entre si uma plataforma mínima de
entendimento lhes cederam o poder de mão beijada.
Sabes? Isto está mesmo entregue aos “bichos” sim ao capital
financeiro internacional e o que por aqui, quem aparece aparentemente como
detentor do poder, não são mais do que mandaretes dos ditos. Pronto mas isto é
muitos mais complicado e também não te estou para chatear interrompendo o teu
merecido descanso.
Mas tenho uma má notícia, o Miguel Portas, sim aquele
jornalista que vinha, aí há duas décadas, conversar connosco a
propósito da nossa luta para repor a Democracia interna no nosso Partido,
também decidiu partir, ontem. Não sei bem se vai ter contigo, mas se for, tens
umas boas horas de conversa, há isso tens!
Um grande abraço querido companheiro. Descansa em Paz que a
gente por cá vai aguentando a “penada”.
domingo, 21 de julho de 2013
Queria dar-te uma prenda…
Fez precisamente hoje 38 anos que nasceste. Sim mal tive
tempo para te visitar (soubeste-o mais tarde) porque a defesa da democracia
conquistada há pouco mais de 1 ano obrigava-me a estar presente por imperativo
de consciência onde fosse necessário, era então um jovem acabado de se tornar Pai com 20 anos.
Fazia parte duma geração a quem queriam roubar o futuro, mas
graças ao 25 de Abril recuperámos parte dele. Era para os vindouros que queríamos
construir uma nova sociedade sem os constrangimentos porque passámos. Queríamos
transformar em realidade os nossos sonhos guiados pela utopia das canções que
cantávamos.
Não, não chegámos ao fim, muito ficou por fazer, mas
resta-nos ainda muito daquilo que conquistámos, sobretudo a liberdade. Se a tua
geração a souber usar este País pode de novo florir e a esperança renascer
desde que juntos façamos o que tem de ser feito.
Digo que te queria dar uma prenda, mas para além do beijo
que já te dei, não tenho mais nada para te dar. Até a esperança num futuro melhor
me está vedado prometer-te. Sim depois de ambos trabalharmos quase a nossa vida
inteira (eu comecei aos 10 e tu aos 15) fomos atirados quase para a indigência
sem disso nos apercebermos, mas
garanto-te que não vou ficar a definhar à espera que outros resolvam por mim o
que tenho que ser eu a fazer.
Amo-te!
quinta-feira, 18 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Poema a Salgueiro Maia
Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.
Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.
E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.
Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.
Manuel Alegre
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.
Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.
E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.
Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.
Manuel Alegre
quarta-feira, 1 de maio de 2013
1º de Maio dia de festa ou de luta?
Hoje comemora-se mais um dia mundial do trabalhador. Embora seja quase banal comemorar o dia disto e daquilo há comemorações diferentes. Neste caso o sangue vertido nunca deverá ser esquecido e é daquelas datas que têm sempre significado. Mas se se trata de comemorar uma data que ficou bem marcada com o vermelho do sangue vertido naqueles dias de Chicago de 1886, pelo mundo inteiro e duma forma crescente o 1º de Maio é cada vez menos dia de festa (como foi no memorável dia primeiro, em Maio de 1974 em Portugal).
Mas na verdade quantos são os trabalhadores que mobilizados pelas duas centrais sindicais existentes em Portugal, vão participar nas acções promovidas? Quantos são os desempregados que se dispõe a gastar (se ainda o tiverem) algum dinheiro para se deslocarem? Quantos são os que à gula dumas monumentais promoções nos “magazans” do Sr. Soares dos Santos, para aí confluem em força?
Mas sobretudo quantos são os que ainda mantendo o seu emprego e vendo-lhes ser roubada uma fatia cada vez maior dos seus rendimentos, acham que vale a pena? Não nos podemos iludir e honra seja feita aqueles que estão sempre presentes. Há que fazer com que se acredite que vale de facto a pena. Em cada palavra de ordem, em cada cartaz ou faixa que se ostente é preciso que se sinta e faça sentido.
Mais que uma data a comemorar é preciso apontar, sem tibiezas objectivos concretos e definidos. “É preciso empurrar e agitar a malta" e não nos limitarmos a entretê-la.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
terça-feira, 23 de abril de 2013
E vão quatro…
Este blog faz hoje 4 anos (fazer é diferente de comemorar) . Nunca me preocupei muito em definir um rumo ou um objectivo para o “folha seca”. Nele inscrevi que “os temas são determinados pelo estado de espírito e disposição do momento”.
Na verdade e como é visível o “ folha seca” não está nos seus melhores tempos, as razões prendem-se com o (mau) estado anímico do seu autor de que há uns tempos vem dado nota. Paciência a vida prega-nos partidas e claro que isso mexe connosco, tirando-nos capacidade interventiva de quem se propõe fazê-lo na defesa de causas justas.
Claro que enquanto tiver à minha disposição um computador (e as contas em ordem com a operadora) lá vai saindo qualquer coisa.
Às amigas e amigos da “bloga” por onde vou andando sem deixar sinal, as minhas desculpas. Às seguidoras e seguidores, também.
A vida tem coisas lixadas.
Beijos Abraços
A vida tem coisas lixadas.
Beijos Abraços
sexta-feira, 8 de março de 2013
Dia Internacional da Mulher
Reeditado porque faz todo o sentido.
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto se declarara um incêndio e 130 morreram queimadas.
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto se declarara um incêndio e 130 morreram queimadas.
Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".
Infelizmente, 155 anos depois faz todo o sentido comemorar esta data e recordar aquele trágico acontecimento, pois "vemos ouvimos e lemos" que em grande parte do nosso planeta continuam a existir formas de exploração deploráveis onde as mulheres continuam escravizadas.
Nos tempos que correm poderemos interrogar-nos, se faz sentido dirigir a luta em defesa das mulheres quando há formas de exploração barbara que atingem de igual modo, homens e crianças.
Em Portugal a luta de mulheres e homens (embora subsistam formas de exploração encapotadas, que competem com muitas das situações que se conhecem por esse mundo fora.) passa duma forma assustadoramente crescente, pura e simplesmente pelo direito ao trabalho com uma remuneração digna e pelo respeito pelos mais elementares direitos consignados na constituição da Republica Portuguesa.
Para as mulheres do meu País e do mundo inteiro deixo uma canção cantada por outra mulher que aqui recorda uma parte da história trágica de um outro País
Não apaguei os comentários feitos há um ano atrás por me parecer não ser correcto.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
79 Anos depois!
Comemora-se hoje o 79º Aniversário da revolta dos operários
vidreiros da Marinha Grande contra a fascização dos sindicatos.
O objectivo era de que esta revolta tivesse proporções
nacionais, mas falhou e só numa ou outra
localidade mexeu alguma coisa, mas foi
de facto na Marinha Grande que assumiu proporções de grande relevo.
Não pretendo historiar, outros amigos o têm feito. Pretendo
apenas deixar aqui a minha simbólica homenagem àqueles que em luta pela
liberdade e o direito a terem o seu sindicato, foram presos, torturados,
deportados e assassinados.
Faz todo o sentido continuar a recordar e homenagear os
Heróis do 18 de Janeiro de 1934.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
"Dia de Natal"
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
sábado, 24 de novembro de 2012
"Parabéns António Gedeão"
Se estivesse vivo o professor Rómulo de Carvalho faria hoje 106 anos. Para além de eminente cientista usando o seu nome próprio, escreveu intensa poesia usando o pseudónimo de António Gedeão. “Habitante” habitual neste blog, não podia deixar de assinalar a data, com aquela que para mim foi a forma mais brilhante de tratar um dos seus mais conhecidos poemas e dar a voz a um dos seus grandes divulgadores.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
"Ergo uma rosa" para relembrar José saramago (hoje nos seus 90 anos)*
*poste reeditado
Ergo uma Rosa (Saramago, Luis Pastor e Maria Pagés)
"Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.
...Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros."
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
10 dias que abalaram o mundo
Vídeo dos alunos da Universidade Metodista de São Paulo baseado no livro de John Reed.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Victor Jara Manifiesto
Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon,
tiene corazon de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas,
aqui se encajo mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.
Que no es guitarra de ricos
ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morira cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una alondra
hasta el fondo de la tierra.
Ahi donde llega todo
y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
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