sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Um texto imperdível...

Quando hoje por volta do meio-dia cheguei ao Casal da Formiga, após uma manhã a despachar a longa lista de compras que a Lurdes Rata reivindicou em tom de ultimato – “ou me arranja material em condições para lhe limpar o curral, ou nunca mais cá ponho os pés!”, notei um inusitado movimento de massas, um aglomerado de vizinhos agitando forquilhas, sachos e podoas, mesmo em frente ao meu portão de chapa zincada castanho-ferrugem.

Por via das dúvidas parei o Ford Capri a uns bons trinta metros do portão e avancei para a pequena multidão sem perceber exactamente o que se passava. “Querem ver que apanharam algum marmelo a fanar-me uma Barca Velha ou um par de alheiras de Mirandela?” – atirei eu a adivinhar. Mas à medida que me aproximava conseguia perceber a disposição hostil da comissão de boas-vindas. Sentia-se no ar um ambiente tenso e começava a cheirar-me a levantamento popular e a sovacos mal lavados.

Encabeçando o povo indignado, a vizinha Carmélia, uma solteirona roliça e de focinho vermelho rubi, que nunca me perdoou não a ter “assediado” numa ocasião em que apareceu lá em casa meio descascada a pedir “um raminho de salsa”, enquanto lânguida passava as mãos pelas mamas e me piscava o olho, dirigiu-se a mim de dedo em riste e tom irado – “o senhor vai ter de nos explicar como é que arranjou dinheiro para comprar um cão novo!” - roncou grosso e curto a líder do movimento. Meio atónito repliquei – “mas… o que é que se passa com o cão?”. A mulher não se fez rogada e continuou – “o senhor tem de explicar ao povo como é que tinha um rafeiro, o Piruetas ó lá que raio é que era, e agora tem um pastor alemão?”.

Como não estava a perceber nada do que se estava a passar, corrigi a mulher – “primeiros não era Pirueta, era Piruças e morreu debaixo dum pneu do Maloio, e segundos o que é que lhe interessa onde arranjei o meu Fidalgo?”

Visivelmente enervada, Carmélia lá continuou a inquirição em “nome do povo” – “e ainda por cima é Fidalgo, vistes!... Deve ter sido baratinho, deve!... O senhor já ouviu falar de “inriquecimento inlícito”, já? Como é que um pelintra como você que nem dá dinheiro à mulher a dias para comprar lixívia, comprou um cão destes que deve ter custado um dinheirão? Só de viagem da Alemanha para cá eu imagino quanto é que não ficou! A ver o que se paga daqui até ao cemitério de Casal Galego no Tumg, eu imagino da Alemanha para cá... upa, upa…”.

Atrás dela o povo parecia acentuar o que a mulher dizia acenado a cabeça de forma concordante e fuzilando-me com o olhar.

Já meio incomodado com o espectáculo a que me estavam a submeter, argumentei – “numa coisa tem razão, sou pelintra, pois se não fosse, já há muito tempo que me tinha mudado para o Pêro Neto, só para não ter de aturar gente desbocada e mal formada como vocês. Alguém tem alguma coisa a ver com que dinheiro é que comprei o cão? Enriquecimento ilícito, eu? Isso só se aplica às pessoas que exercem cargos políticos. Isso é lá mais uma daquelas trapalhadas só para inglês ver e para dar tudo em águas de bacalhau. Os nossos políticos são tão burros e têm tão pouca confiança uns nos outros que não percebem que a credibilidade e a integridade não se decreta, praticasse. Mas afinal o que é que vocês me querem? Querem inverter o ónus da prova?”.

Fez-se silêncio. O “ónus da prova” parecia ter sido disparado com uma bazuca, tal foram os efeitos devastadores sobre a moral dos manifestantes. Carmélia ainda tentou recompor-se e reagrupar as tropas – “você não é político mas pensa nisso todos os dias, ou julga que a gente não sabe que gostava de ser presidente da junta?”.

Assumindo o ar confiante de candidato a presidente da junta levantei o queixo e, colocando a voz declarei alto e bom som: “vêem ao que um homem de bem se tem de submeter só porque foi sério e não quis apalpar aqui a vizinha Carmélia? Vêem o que é que uma pequena velhaca pode fazer para pôr em causa o meu bom nome, só porque tem inveja de eu ter um cão novo?”. Senti que estavam a ser sensíveis aos meus argumentos, só faltava a estocada final. Virando-me de súbito em direcção ao quintal, juntei polegar e indicador e, levando-os à boca, assobiei com quanta força tinha. “Fidalgo, ataca!” - gritei a plenos pulmões. O cão respondeu pronto ao meu sinal e, saltando o muro de um pulo, correu em direcção aos revoltosos, procurando companheiros para a brincadeira. Num ápice todos os vizinhos desapareceram do meu campo visual, deixando no ar um cheiro a derrota e aos tais sovacos mal lavados.

Fidalgo, um pastor alemão com pedigree, brincalhão, divertido e fiel, que apenas se queria divertir, correu para mim de cauda a abanar. Baixei-me e afaguei-lhe a enorme cabeça lustrosa – “nada como um alemão para os pôr na ordem” – segredei-lhe ao ouvido. “Lindo menino!”

Relaxoterapeuta

Este texto foi-me enviado via mail pelo relaxoterapeuta, autorizando-me a fazer dele o que quisesse. É evidente que é esta a melhor utilização que lhe posso dar. Partilhando-o com os meus leitores.Obrigado meu caro.

"Perfilados de medo"

É sabido, Portugal é um país de bons poetas e maus ministros. Pior do que os habituais estadistas, apenas os poetas quando se tornam políticos. No século XIX, resolvia-se a coisa dando aos bardos do regime a pasta do Mar. A Cavaco Silva a poesia é coisa que não lhe assiste, como se diz agora, mesmo tirando algumas tiradas dignas de um surrealismo tardio sobre o “sorriso das vacas”. Em entrevista à TVI, o Presidente-economista deu como adquirido que Portugal necessita fazer esta política de cortes cegos e que está condenado a perder a sua soberania económica. Alexandre O’Neill era poeta e as sua palavras fizeram a autópsia de um país de governantes medíocres e pessoas cujo silêncio cobarde sustentava qualquer ditadura. “Ah o medo vai ter tudo. Tudo (penso que o medo vai ter tudo e tenho medo que é justamente o que o medo quer). O medo vai ter tudo, que se tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos. Sim, a ratos”, escreveu.

O único argumento que os chanceleres europeus e os nossos governantes têm, para impor uma política que vai destruir a economia de todos para dar mais riqueza a muito poucos, é o medo. Depois do estado de choque, da negação, virá a raiva. E algumas pessoas terão a coragem de dizer que preferem ser livres a ser submissas, mesmo que isso seja um caminho mais difícil. A caminhada começa amanhã com as manifestações de 1 de Outubro. Nem toda a gente acha normal ser governada pela Alemanha devido a dívidas que não contraiu e a lucros especulativos que não teve.

Ao jornal i e ao autor desta crónica a devida vénia.
Por Nuno Ramos de Almeida, publicado em 30 Set 2011 - 03:00 Editor-executivo
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Inspiração surripiada daqui

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Hoje é o primeiro dia...


Já por diversas vezes publiquei esta canção do Sérgio Godinho. Hoje faço-o novamente talvez porque, para mim é um dia em que a canção faz mais sentido que nunca.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Manual de Poupança de Água (incompleto)

Água pode aumentar para evitar desperdício
Eu como nunca acreditei que este governo e as personalidades que o compõem resolveriam com alguma eficácia os problemas do País, nem sequer lhes concedi o estado de graça (até porque não achei graça nenhuma à vitória eleitoral que os levou ao poder) tive ontem uma primeira surpresa.

Sim. Disse a nossa ministra do ambiente (e de mais qualquer coisa) a propósito do "eventual" aumento da água «Este recurso tem de ser devidamente valorizado. As pessoas têm de saber que a água custa dinheiro, a água não é para desperdiçar, a água é para ser usada com todo o cuidado e com toda a parcimónia e associar um preço a água favorece comportamentos mais cuidadosos, mais sustentáveis no que diz respeito ao uso do recurso da água».

Eu até já tinha suspeitado que esta ministra ia dar nas vistas com aquela ideia dos desengravatados. Mas agora sim fiquei impressionadíssimo, a pasta está bem entregue. Até porque sabemos que os recursos deste precioso líquido são escassos e também sabemos que a água custa dinheiro. Assim e porque aquela intervenção deixou-me impressionado, peguei num bloco de notas e fiz o esboço de um manual de procedimentos a pôr em prática rapidamente.

1- Banhos: 1 vez por semana e com sabão macaco, para que a espuma não seja abundante e não seja necessária muita água para a retirar do corpo.

2- Fazer a barba: só ao Domingo antes de ir à missa.

3- Utilização da sanita. Só em casos de emergência. Como vivo junto a uma floresta, sempre que possível as necessidades fisiológicas passam a ser lá feitas (dupla poupança, pois também o papel higiénico passa a ser dispensável)

4- Água para cozeduras. Como lá em casa se consome bastante Peixe passa a consumir-se cru (claro que temos que mandar vir um livro de receitas Japonês, espero que haja uma tradução acessível.

5- Beber 1,5 lt de água diariamente como aconselham os médicos (que se lixem os médicos porque não são eles que pagam a respectiva conta). Passa a beber-se só com sede e pouca.

Pronto este vai ser o manual de procedimentos lá de casa no que toca a poupança de água. Claro que ainda é só um esboço, haverá certamente ainda mais qualquer coisa a acrescentar.

Espero que a inspiração “divina” que a Ministra me deu seja acompanhada pelos seus pares nas outras (muitas) poupanças que vou ter que fazer.

Desculpem a "vaidade". Mas esta ministra, foi eleita deputada pelo meu Distrito.

"Uma estratégia para Portugal"

Novo livro
Empresário Henrique Neto apresenta 'Uma Estratégia para Portugal'

Livro 'Uma Estratégia para Portugal', de Henrique Neto, é apresentado amanhã em Lisboa, e dia 6, em Leiria. Mais do que um livro sobre como pagar as dívidas, o empresário da Marinha Grande pretende "dar ideias para fazer crescer a economia" e "desencadear um debate sobre o que fazer" pelo País
Chama-se 'Uma Estratégia para Portugal', é o mais recente livro de Henrique Neto, onde o empresário da Marinha Grande apresenta um conjunto de propostas que podem contribuir para resolver algumas questões relacionadas com a crise "a curto prazo".

"É uma tentativa de resposta à situação de crise, com algumas propostas e estratégia, que é uma das coisas que tem faltado a Portugal", refere Henrique Neto, a propósito do seu livro, apresentado amanhã, em Lisboa, dia 6 de Outubro, em Leiria, e dia 10, no Porto.

Mais do que um livro sobre como pagar as dívidas, Henrique Neto pretende "dar ideias para fazer crescer a economia" e "desencadear um debate sobre o que fazer por Portugal". Um "contributo" em tempo de crise, que pode também ser uma ferramenta de trabalho, pelo que já foi enviada a vários governantes e políticos, nomeadamente ao primeiro-ministro Passos Coelho, ao líder da oposição socialista António José Seguro, e ao ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira.

(Mais informação na edição impressa) Diário de Leiria

Comentário:
Era ainda adolescente quando comecei a ouvir Henrique Neto com atenção. Pela vida fora fui lendo quase tudo o que foi escrevendo, e dizendo. Tive a sorte de ter com ele algumas conversas individuais. Trata-se de uma personalidade controversa. Aliás provoca mesmo a controvérsia para que as soluções apareçam.

Para além de uma grande dose de teoria H.Neto. Fez obra, não se ficando pela teoria. Pela vida fora Estudou, discutiu e propôs opções. Lembro-me de duas entre muitas. O Porto de águas profundas na zona de Peniche e o aproveitamento das vias ferroviárias para o transporte de camiões carregados com um sistema revolucionário de plataformas giratórias que permitia a saída individual de um camião em qualquer uma das gares, sem ter que mover os outros. Claro que não se ficou por aqui. Para além de ter aplicado muitas das suas teorias à prática na sua actividade empresarial (quando se tornou empresário) antes como Director Comercial da primeira empresa de moldes a A.H.Abrantes. Já estava a léguas. Foi já nessa altura que levou a vários cantos do planeta o saber (palavra que usa com grande frequência dando-lhe consistência) dos operários e técnicos da indústria de moldes.

Claro que vou estar numa das apresentações, do livro.